ASSF Batista Recanto dos Avós

 

Precariedade do Recanto dos Avós (Batista)


Ano retrasado (2012), final do ano, no dia da festa de natal, estive no Recanto dos Avós, desde Sorocaba, para falar com a coordenadora dessa casa, com compromisso agendado. Tomei o maior chá de cadeira, mas como era por uma causa nobre, encontrar um lugar adequado para instalar minha mãe, aguentei firme. Em outras situações, quando o prejuízo é só meu, não espero.

Não foi de todo um tempo desperdiçado, enquanto esperava fiquei observando as pessoas, os velhinhos com seus familiares e a atitude dos poucos funcionários para com eles. Faço isso automaticamente e quase sempre. Reparei no semblante das vítimas e não consegui ver alegria em nenhum deles, todos amontoados em um barracão coberto com telhas de zinco ou algo assim. Estava quente ao gosto do diabo, ali. Consegui perguntar para dois ou três se eles estavam felizes e a resposta unânime foi um sonoro “não”.

Posso entender essa reação, muito parecida com a dos dependentes químicos, pessoal a quem tive a oportunidade de servir por um ou dois anos. Meu primeiro trabalho na área de Educação Física, com diploma na mão, foi numa dessas espeluncas. O fato é, os internos nunca estavam satisfeitos e muito menos felizes, pois o desejo deles, tanto quanto dos velhinhos era estar com os familiares. O problema é, nem os amigos de Matusalém (idosos) e nem os amigos de Noé (dependentes químicos) conseguem entender um pequeno detalhe, ou seja, seus familiares não lhes têm amor, salvo raras exceções, talvez o caso do leitor.

Após a longa espera, a moça veio me atender, e muito educadamente mostrou-me o lugar. Estava tudo bem bagunçado e a justificativa foi o fato da ANVISA ter feito uma série de exigências estapafúrdias e fora de hora (como botão para chamar ajuda ao lado de cada leito) e, inclusive, por essa razão, só haveria uma vaga para minha mãe em meados de fevereiro de 2013, desde que passasse pelo crivo da enfermeira Edna. A partir daí deveríamos esperar um telefonema dessa senhora para agendar a data da avaliação.

Tal telefonema não aconteceu. Liguei algumas vezes, ocasiões em que a promessa foi renovada, mas nunca houve o cumprimento Acabei deixando a coisa de lado por causa dos cuidados e desdobramentos com meu filho. Enquanto isso, minha mãe continuou morando sozinha, em uma espécie de apartamento externo na casa de um casal de idosos amigos. Meu irmão (que não é filho dela) encarregava-se de dar assistência a ela e eu vinha quando dava. Mas a cada nova visita eu percebia que ela não tinha mais condição de ficar só.

No segundo semestre, nós voltamos a morar em São Paulo e o problema “minha mãe” tornou-se prioridade. Retomei o contado com o Recanto dos Avós e mesmo depois de ter passado minha mãe pela tal avaliação incluindo uma consulta com o geriatra indicado, na verdade o cara era ortopedista de velhos.

Ela não foi aceita e havia vagas. Não nos disseram a razão, talvez porque eles tenham submetido meu nome a verificação junto a esses órgãos particulares de verificação de histórico comercial das pessoas físicas e jurídicas (SERASA, SCPC, etc) e isso os tenha assustado, não por haver restrições, mas por não ser digno da tal “média” para compras a crédito, embora o custo da internação deveria ser pago com o riquíssimo INSS dela. Nós completaríamos a diferença, apenas.

Pior ainda se eles tiverem declinado de atender minha mãe por ela não ser batista. Mas não acredito nisso.

Agora falarei um pouco como consultor de organizações sem fins lucrativos.

Como todas as organizações batistas, incluindo igrejas, juntas missionárias, JUERP (e a livraria falida), etc., o Recanto dos Avós é o resultado da incompetência. Se as pessoas responsáveis fossem competentes os resultados seriam outros. Mas isso não é privilégio dos batistas, trata-se de uma epidemia nacional, especialmente nos dias em que vivemos.

O Recanto dos Avós, e seria conveniente às associações de classe dos avós mover ação contra a utilização indevida desse nome, pois eles não são dignos de tal, vive às custas de:

1) Pagamento da Internação da vítimas (que eles atrevidamente chamam pacientes) através da aposentadoria devidamente transferida para a organização, via procuração, ou através das famílias dos internos.

2) Doações das igrejas batistas (institucional) ou de membros das igrejas batistas (pessoal), onde há destaque para a Igreja Batista da Água Branca (IBAB), parceira da casa, em dinheiro ou objetos.

Minha avaliação é no sentido de haver falta de dinheiro por lá, pelo que se pode ver. Para a internação, além do acerto das mensalidades, cada novo interno precisa comprar cama, colchão e armário novo para seu uso, sem direito a restituição. As construções são precárias, geralmente faltando pintura e arremates adequados, falta anteparos e corrimãos (exigidos pela ANVISA) em todos os locais visitados (quartos, corredores, salas, rampas de acesso, escadarias, etc.). As funcionárias usam jalecos, apenas, sem as outras proteções necessárias e/ou preconizadas pelos órgãos reguladores.

3) Outros

Uma observação importante é sobre a possibilidade dos pastores batistas fazerem uso das chamadas vagas sociais (elas acabam sendo custeadas pelos internos pagantes), geralmente, para seus familiares e/ou apadrinhados. Isso era comum no Colégio Batista, nos tempos em que meus filhos estudavam lá, e pode muito bem acontecer no Desencanto, digo, Recanto dos Avós.

Esse tipo de indicativos sugere a necessidade da participação de profissionais capacitados e especializados. Há todo um protocolo para tanto. É preciso contar com administradores e profissionais de marketing capazes em gerenciamento de organizações sem fins lucrativos. Uma organização como essa, tendo atrás de si uma denominação religiosa como a Igreja Batista da Convenção poderia ser referência no tratamento e cuidado dos idosos, servindo ainda como exemplo cristão de ação social, se fosse gerida adequadamente. Mas esse não é o caso do Recanto dos Avós dos irmãos batistas, em minha opinião.

Essa casa é uma vergonha para eles, falo da comunidade batista da convecção brasileira, salvo engano.


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