Paz de Espírito


Stephen Kanitz

A maioria dos administradores de entidades que ajudam os outros vive assustada e intranquila. As recessões e as taxas de juros elevadas  também os afetam, embora eles não almejem o lucro.

Em épocas de recessão as doações caem pela metade, e ao contrário das empresas, as entidades tendem a não mandar ninguém embora. Órfãos não podem ser colocados na rua por falta de donativos.

Hoje em dia, empresas “adotam” projetos sociais por um ano ou dois no máximo, até poder ganhar um destes prêmios de Cidadania Empresarial, e se não ganham um prêmio trocam o projeto social por outro.

E quando ganham este prêmio, gastam fortunas anunciando o “merecido” prêmio, muitas vezes mais do que o donativo original. Já vi empresas gastarem R$ 200.000,00 em propaganda por ter recebido o Prêmio de Cidadania de um projeto que custou R$ 120.000,00.

Um orfanato, ao contrário, não anuncia. Quando adota um órfão é para sempre, e não manda embora metade dos órfãos numa recessão, nem muda de projeto.

Prêmio Bem Eficiente

Todo ano eu organizava um dos poucos Prêmios para aqueles que devotam 100% de suas energias e receitas ao social, ao contrário das empresas Cidadãs que gastam 0,1% de suas receitas no social. Tentei fazer parceria com uma famosa revista, mas a resposta foi “ONGs não anunciam, Empresas Cidadãs, sim”.

Das 280 entidades que analisamos anualmente, 80% não tinham dinheiro em caixa para suprir suas despesas por mais de uma semana. Dos 46 critérios que eu utilizava, este era seguramente aquele onde as entidades eram as mais deficientes. Falta de reservas em caixa, como o Brasil até a vinda do Henrique Meirelles

Esta situação deixava as entidades inseguras, e complicava o esforço de arrecadação.

Nenhum doador quer doar para que a entidade pague os salários atrasados. Querem doar para construir um prédio novo ou criar um projeto inovador, mas a maioria das doações é feita no desespero. O Prêmio Bem Eficiente era de R$ 200.000,00 e ia para uma das 50 entidades vencedoras, um Prêmio e tanto.

Escolheríamos aquela onde o dinheiro faria a maior diferença, para uma entidade que estava com seu dinheiro em caixa próximo a zero. Ao entregarmos o cheque, eu sugeria que colocassem o dinheiro num fundo de investimento, e só o gastassem em última necessidade. Era um pedido que fazíamos mais ou menos sabendo que dificilmente seria cumprido.

Ano passado, a primeira entidade recebedora desta doação nos procurou para prestar contas. Ela havia dobrado de tamanho e construído uma nova sede com o nome Prédio Bem Eficiente, e pediu para que eu e as empresas que patrocinavam o prêmio viéssemos inaugurá-la. O Prédio devia ter custado uns R$ 400.000,00, muito mais do que nosso prêmio.

Perguntei como conseguiram a diferença, e para minha surpresa me mostraram que nem havia gasto um tostão do Prêmio Bem Eficiente. “Com estes juros de 25%, temos agora o triplo em caixa. O seu prêmio ainda está conosco, ele nos deu algo que nunca tivemos. Vocês nos deram uma paz de espírito”.

Paz de espírito para não entrar em desespero com a recessão e as constantes mudanças na política econômica. Puderam ser mais agressivos, procurar recursos sem mostrar desespero, mostrando planos futuros e não despesas passadas. Permitiu pela primeira vez que todos respirassem tranquilos e se concentrassem nas questões estratégicas de longo prazo e não mais no corre-corre do curto prazo.

Curiosamente, do ponto de vista financeiro, nós do Prêmio Bem Eficiente não fizemos absolutamente nada para a entidade. O dinheiro nem foi usado, é como se não tivéssemos doado nada. Tudo isto foi possível porque 6 empresas me perguntaram o que eles poderiam fazer pelas entidades que já existiam.

Hoje esta pergunta não é mais feita, perdi minha função. A maioria destas empresas ditas socialmente responsáveis criam seus projetos internamente, estão cancelando seus donativos para as entidades que já existem tirando a tranquilidade e a paz de espírito de muita gente boa neste setor e que acaba desistindo, como eu.

Dinheiro pode não trazer felicidade, mas certa quantia guardada no caixa pode trazer paz de espírito.

Ops: Clonado no Blog do Stephen Kanitz sem qualquer autorização prévia

 


 

 

 

 


Author: Lou H. Mello

Olha só, pessoal assíduo no meu blog profissional já está careca de saber quais são as minhas graduações e tentativas de pós, etc. Pessoalmente, dou pouco valor a tudo isso. É mais um mercado, apenas, onde as universidades acreditam ter o monopólio dos diplomas. Ledo engano. A ajuda é sempre muito relativa. Estudei a Bíblia e ainda o faço, dei aulas em várias escolas teológicas, até o pessoal encerrar minha carreira, nessa área. Acho que não me achavam adequado, sei lá. Legal mesmo, foi viajar por aí a pampa, com destaque à missão para a Albânia, em 1979 e países da África em 1981. Depois disso rodei muito pelos EUA e Europa, mas nada demais nisso. Tenho espírito missionário, acho, mas nos EUA estava mais interessado em fazer um pé de meia. Não deu certo. Mas aprendi muito por lá, onde há muito a aprender.
Atualmente, acalento o Projeto Corações Valentes e tento manter dois ou três clientes, aos quais presto consultoria na área de Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos), algo que aprendi com os norte-americanos, campeões nessa área, , sobretudo, com Dr. Dale W. Kietzman, meu mentor em marketing para organizações não lucrativas. Entretanto, e aos poucos, acho que estou de coisa com a mudança comportamental, de tanto buscá-la para mim mesmo. Culpado disso foi o Dr. Zenon Lotufo Jr, que investiu em minha pessoa, muito além do normal. Talvez 2017 me abra algumas portas nessa área,
Esse blog surgiu como a forma ideal para a prática de algo que sempre gostei muito de fazer, ou seja, escrever e me livrar dessa coisa interior que pressiona meu peito e pode me matar. Tenho alguns projetos de livros em andamento, quem sabe ainda edito um ou alguns deles, antes de fazer a travessia.
Gosto de escrever, de música, literatura em geral, educação, astronomia (minha segunda paixão secreta, Ih falei), educação física e, de vez em quando, dou um ou outro pitaco nessas áreas também. Sou o principal leitor de tudo que escrevo. Ter leitores sempre foi algo inimaginável, enfim.

Lou H. Mello

Olha só, pessoal assíduo no meu blog profissional já está careca de saber quais são as minhas graduações e tentativas de pós, etc. Pessoalmente, dou pouco valor a tudo isso. É mais um mercado, apenas, onde as universidades acreditam ter o monopólio dos diplomas. Ledo engano. A ajuda é sempre muito relativa. Estudei a Bíblia e ainda o faço, dei aulas em várias escolas teológicas, até o pessoal encerrar minha carreira, nessa área. Acho que não me achavam adequado, sei lá. Legal mesmo, foi viajar por aí a pampa, com destaque à missão para a Albânia, em 1979 e países da África em 1981. Depois disso rodei muito pelos EUA e Europa, mas nada demais nisso. Tenho espírito missionário, acho, mas nos EUA estava mais interessado em fazer um pé de meia. Não deu certo. Mas aprendi muito por lá, onde há muito a aprender.
Atualmente, acalento o Projeto Corações Valentes e tento manter dois ou três clientes, aos quais presto consultoria na área de Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos), algo que aprendi com os norte-americanos, campeões nessa área, , sobretudo, com Dr. Dale W. Kietzman, meu mentor em marketing para organizações não lucrativas. Entretanto, e aos poucos, acho que estou de coisa com a mudança comportamental, de tanto buscá-la para mim mesmo. Culpado disso foi o Dr. Zenon Lotufo Jr, que investiu em minha pessoa, muito além do normal. Talvez 2017 me abra algumas portas nessa área,
Esse blog surgiu como a forma ideal para a prática de algo que sempre gostei muito de fazer, ou seja, escrever e me livrar dessa coisa interior que pressiona meu peito e pode me matar. Tenho alguns projetos de livros em andamento, quem sabe ainda edito um ou alguns deles, antes de fazer a travessia.
Gosto de escrever, de música, literatura em geral, educação, astronomia (minha segunda paixão secreta, Ih falei), educação física e, de vez em quando, dou um ou outro pitaco nessas áreas também. Sou o principal leitor de tudo que escrevo. Ter leitores sempre foi algo inimaginável, enfim.

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