A mulher de US$ 80 bilhões

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Melinda Gates comanda a maior fundação privada do planeta e está doando quase toda a fortuna da família. Conheça seus planos e entenda o que inspira ela e o marido, Bill Gates, a distribuir tanto dinheiro

21/10/2016 20:00

Por: Hugo Cilo, de São Francisco (EUA)

Fonte Publicada por ISTOÉ Dinheiro.

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Melinda Gates, CEO da Fundação Gates: “Todos nós, com ou sem dinheiro, temos a capacidade de melhorar a vida de alguém” ( foto: Alain Grosclaude/afp)

Uma mulher discreta, sem maquiagem ou joias, roupas simples e sapatos que geralmente agradam mais pelo conforto do que pela estética, chegou no início deste mês a um dos maiores eventos de tecnologia do mundo, a Dreamforce, em São Francisco, sem despertar a atenção da grande maioria dos cerca de 170 mil participantes. Não fossem pelos quatro seguranças de ternos pretos e microfones nos ouvidos que a cercavam, poucos reconheceriam que se tratava de Melinda Gates, mulher do homem mais rico do mundo, Bill Gates, o emblemático fundador da Microsoft.

Mas não demorou muito para que ela se tornasse o centro das atenções do salão principal do Moscone Center, o megacomplexo de convenções que, naquela semana, abrigava gente de todas as origens e tribos – de monges tibetanos e homens engravatados a elegantes mulheres árabes de turbantes e túnicas, além, evidentemente, de nerds, geeks e afins. “Se soubesse que tanta gente viria me ouvir, teria trazido o Bill para me ajudar a responder”, brincou Melinda, antes de iniciar uma espécie de talk show. O interesse da multidão em escutar o que Melinda, 52 anos, tinha a dizer se explica, principalmente, pelo que ela representa no campo da filantropia.

À frente da Bill & Melinda Gates Foundation, popularmente conhecida como Fundação Gates, ela comanda o maior fundo privado dedicado a causas humanitárias em todo o mundo. Ninguém tem o mesmo poder de fogo. Somente a fundação, que recebe doações de outros bilionários, como o megainvestidor Warren Buffett, dispõe de uma fortuna de US$ 40 bilhões para ser gasta em projetos sociais. E Melinda tem, ainda, carta branca para doar tudo o que puder dos bilhões e bilhões de dólares que ela e o marido acumularam até hoje.

Atualmente, cerca de US$ 40 bilhões da fortuna de Gates já está reservada para a filantropia, o que dá a Melinda, somado ao orçamento da fundação, o poder de distribuir uma bolada de US$ 80 bilhões para programas de ajuda aos mais carentes, especialmente em países pobres da África. Essa cifra pode aumentar no futuro, conforme o valor das ações doadas à Fundação Gates. Segundo a Bloomberg, a fortuna atual da família é avaliada em US$ 90 bilhões. Antes de morrer, o casal deixará apenas US$ 10 milhões para cada um dos três filhos. O restante será doado. 

“O dinheiro só tem valor se, de alguma forma, puder ajudar alguém a ter dignidade e uma vida melhor”, disse Melinda à DINHEIRO. “Bill e eu criamos esse desejo de doar o que pudermos aos mais necessitados desde os tempos de noivado, quando fizemos nossa primeira viagem de férias à África.” Ela se refere a um safári em Zanzibar, na Tanzânia, em 1993, que mudou a visão de mundo do casal. Em sintonia com seu estilo simples, Melinda evita o rótulo de generosa. Embora os US$ 35,5 bilhões doados pela sua fundação até hoje tenham salvado a vida de mais de cinco milhões de crianças desde 2000, pelos cálculos da Science Progress, Melinda garante que o esforço de combate às desigualdades deve ser incorporado às estratégias das empresas.

“Não se trata de generosidade. Só não podemos aceitar, como seres humanos, que crianças continuem morrendo de diarreia e rotavírus, algo que pode ser curado com um remédio barato em qualquer farmácia dos Estados Unidos”, disse Melinda. “Todos nós, com ou sem dinheiro, temos a capacidade de melhorar a vida de alguém.” Com esse discurso, Melinda tem convencido outros bilionários a seguirem o mesmo caminho, doando para a filantropia boa parte da riqueza que acumularam durante a vida. É o caso, por exemplo, de Buffett, o maior apoiador da Fundação Gates.

Entre 2006 e 2015, por meio do Berkshire Hathaway, ele doou US$ 17,3 bilhões ao fundo, cerca de 30% de sua fortuna. E a lista de bilionários doadores fica mais extensa a cada dia. O fundador da Oracle, Larry Ellison, o criador do Facebook, Mark Zuckerberg – que decidiu criar sua própria fundação e doará 99% das ações da companhia – e até o brasileiro Elie Horn, dono da construtora Cyrela, que promete doar 60% da sua fortuna estimada em US$ 1 bilhão, fazem parte do The Giving Pledge (“O compromisso de doação”), um clube idealizado por Gates e Buffett formado, atualmente, por 156 bilionários.

Juntos, eles irão doar algo próximo de US$ 335 bilhões. “Não levaremos nada conosco para o outro mundo”, disse Horn, em declaração publicada no site da The Giving Pledge. “As únicas coisas que ficam são as boas ações que realizarmos neste mundo.” O ato de doar milhões ou bilhões de dólares representa, evidentemente, um gesto nobre de desapego. Mas não se trata apenas disso. A lei de heranças nos Estados Unidos morde entre 29% e 50% da fortuna dos mais ricos. A única maneira legal de amansar o Leão é distribuir polpudos donativos em vida, evitando que boa parte da fortuna pessoal seja socializada depois pelas mãos dos burocratas do governo.

Portanto, fica mais fácil entender porque os americanos doaram US$ 373,2 bilhões para causas sociais no ano passado, o equivalente a pouco mais de US$ 1 bilhão por dia. Deste total, pouco mais de 70% vieram de doações individuais. No Brasil, onde o benefício tributário é mais modesto e o imposto sobre herança é de 3,86%, as doações individuais alcançaram somente R$ 13,7 bilhões em 2015, segundo o Instituto pelo Desenvolvimento do Investimento Social. Nos próximos anos, tanto as cifras quanto o alcance dos projetos da Fundação Gates deverão conquistar dimensões ainda muito maiores.

Quanto mais doações Melinda conseguir catalisar, mais projetos serão financiados. “Sonho com o dia em que empresas e pessoas físicas incluam em suas planilhas de orçamento uma parcela para ajudar o próximo”, afirma Melinda. “E não importa quanto possuímos, se são bilhões de dólares ou pouco dinheiro, mas como esse recurso está sendo usado, com eficiência e inteligência.” E Melinda, uma texana formada em ciência da computação e mestre em administração de empresas, ambas pela Universidade Duke, afirma que não tem medido esforços para conseguir seguidores. “Ultimamente, tenho percebido um aumento do interesse de empresários, que ligam para nós se oferecendo para doar”, afirma.

A sua capacidade em atrair recursos para a filantropia tem sido diretamente proporcional ao aumento de sua influência no universo da política. Não é raro vê-la ao lado de personalidades que vão desde o Papa Francisco e a chanceler alemã Ângela Merkel até o ativista e líder da banda irlandesa U2, Bono Vox. O presidente Barack Obama e a primeira-dama Michelle também são figuras recorrentes dos encontros promovidos por Melinda. Uma das suas frentes de maior destaque no cenário internacional é o trabalho voltado à capacitação de mulheres e meninas em comunidades carentes ou marcadas pelo machismo.

Há quatro anos, Melinda lançou a Cúpula de Londres Sobre Planejamento Familiar, um grupo formado por pessoas de várias partes do mundo, dedicado a encontrar soluções para os problemas mais recorrentes enfrentados pelas mulheres nesse campo. De 2012 a 2020, mais de 120 milhões de mulheres receberão regularmente lotes de anticoncepcionais, além de orientação de como evitar a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. “Qualquer transformação de uma sociedade passa pela mulher”, diz Melinda. “As mulheres são o alicerce das famílias, das comunidades, dos países.”

No Brasil, a Fundação Gates financia aproximadamente 30 projetos, voltados especialmente ao combate a vírus, como o zika e o causador da malária e febre amarela, além de apoiar mulheres grávidas vivendo em condições de risco. 

“A Fundação Gates, em parceria com o Ministério da Saúde, tem demonstrado cada vez mais interesse por financiar bons projetos no Brasil”, garante Claude Pirmez, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e gerente do programa de redução da prematuridade e desenvolvimento saudável de crianças da Fundação Gates.

Esta iniciativa, segundo ela, recebeu financiamento de R$ 8,4 milhões na primeira fase, em 2014, e R$ 11 milhões, na segunda etapa, este ano. Trata-se do maior projeto de Bill e Melinda no País e funcionará até a segunda metade de 2017. Os projetos financiados pela Fundação Gates no Brasil fazem parte do Grand Challenges Explorations (GCE), lançado em 2008 em 60 países. A proposta é transformar ideias inovadoras em soluções para graves problemas mundiais. No total, 1.140 projetos já foram financiados, sete deles no Brasil. A cada ano são realizadas duas chamadas públicas, com diferentes tópicos e desafios.

Os projetos recebem US$ 100 mil, ao longo de 18 meses, para colocar a proposta em prática. Se a ação implementada for bem-sucedida, é possível se inscrever para um financiamento adicional de US$ 1 milhão. “Em muitos campos de pesquisa, como no desenvolvimento de novas epidemias, como ebola, zika e gripes raras, o apoio financeiro de fundações como a de Melinda e Bill Gates já superaram os investimentos feitos por alguns governos”, diz o pesquisador Ni Jinren, da Universidade de Tsinghua, em Pequim, um dos mais ativos centros de desenvolvimento de vacinas no mundo.

Outro acordo da Fundação Gates com o Ministério da Saúde e a Fiocruz, firmado em 2013, recebeu financiamento de pouco mais de R$ 12 milhões para a produção da primeira vacina dupla contra sarampo e rubéola exclusiva para exportação. Desde então, cerca de 30 milhões de doses foram enviadas às Nações Unidas (ONU), que repassou os produtos para campanhas de imunização em países em desenvolvimento na Ásia, na África e na América Latina. “É impossível imaginar que as doenças e a miséria poderão ser combatidas apenas por meio dos governos, sem o comprometimento de empresas e doadores individuais”, afirma Vicente de Paula Faleiros, professor da UnB e especialista em filantropia. “É como acreditar que alguém pode sair do buraco puxando para cima os próprios cabelos.”

A julgar pela ação de Melinda e Bill Gates e a proliferação da cultura de filantropia entre os bilionários de vários países, a iniciativa privada complementará cada vez mais o papel dos governos na solução dos grandes problemas que afligem a humanidade (leia reportagem sobre esse movimento no Brasil, à pág. 40). Felizmente, o chamado capitalismo consciente está ganhando adeptos no mundo todo. Faz sentido. Como disse o falecido fundador da Apple, Steve Jobs, quando questionado o que pensava sobre as doações que Bill Gates havia começado a fazer: “Acho que o mundo é um lugar melhor desde o dia em que Bill percebeu que o objetivo dele não é ser o cara mais rico no cemitério.”

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“Não damos dinheiro. Criamos condições para que as pessoas saiam da dificuldade”

À primeira vista pode soar contraditória a declaração de que Melinda Gates não enxerga com bons olhos a distribuição de dinheiro aos mais pobres. Seu discurso, no entanto, faz sentido quando ela explica que o apoio a projetos por meio de financiamentos da Fundação Gates vai muito além disso. Melinda contou em palestra em São Francisco e também à DINHEIRO o que pensa sobre combate à pobreza e a redução da desigualdade:

O aumento dos recursos voltados à filantropia pode criar, no longo prazo, a sensação de que sempre haverá programas de assistencialismo à disposição dos mais pobres?
O assistencialismo pode fazer mal às pessoas. Mas não é disso que se trata. Nós não damos dinheiro para as pessoas, mas criamos condições para que elas saiam das situações de dificuldade. Oferecemos as ferramentas para que elas encontrem suas próprias soluções. Ou seja, financiamos programas de geração de renda. Não somos a renda.

O que pensam seus três filhos sobre o desejo seu e de Bill Gates de doar quase toda a fortuna?

Eles apoiam e sabem que terão o suficiente para viverem bem. Nossos filhos nos acompanham em nossas viagens pela África e sabem o que está acontecendo lá. Ter comida na mesa e água limpa para beber são essenciais. Em casa, sempre acreditamos que ajudar aos que precisam não era uma opção, mas a única coisa a fazer.

As mulheres estão conseguindo ampliar seu espaço no mercado de trabalho e na sociedade?

Não existe bala de prata para resolver a questão da desigualdade de gênero. É preciso investir na formação acadêmica das mulheres desde o ensino básico. Temos que incluir nas grades curriculares aulas de ciência da computação, de administração, de ciências. O mercado de trabalho na área de tecnologia é um dos mais democráticos que existem, mesmo assim há diferenças entre os salários dos homens e o das mulheres.

Quando esse cenário deve mudar?

É difícil dizer. Os países mais justos e avançados são aqueles que conseguiram enxergar a importância da mulher para a formação da sociedade. A mulher, mais do que uma importante força de trabalho, é fundamental para a formação das próximas gerações. Não podemos minimizar a importância das mães na formação do caráter, no cuidado com a saúde e na educação dos filhos.

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Comportamento Ético das Ongs e consequências

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Há poucos dias, presenciamos a ocorrência do fenômeno climático batizado de Matthew ou Furacão Matthew.

Extensão:

Jamaica, Cuba, República Dominicana, Bahamas e, especialmente, o Haiti. Wikipédia

Total de mortes: 1.384

Categoria: Furacão Categoria 5

Data: 28 de setembro de 2016 – 10 de outubro de 2016

Áreas afetadas: Províncias atlânticas do Canadá, Daytona Beach, mais

 

No dia seguinte, o sol ainda não alcançara seu expoente e os anúncios das Organizações Não Governamentais já estavam postados e clamando por doações para socorro das vítimas do Matthew, esse imbecil.

A Visão Mundial, a Mais, Médicos Sem Fronteiras, Unicef e muitas mais estavam lá e seguem com a propaganda. Doem para que eles possam ajudar as vítimas dessa malvadeza sideral e/ou climática. Será?

Tudo bem, Haiti e Cuba são a expressão bastante convincente de países mal administrados, onde qualquer ventinho ou terremotozinho não deixa nada em pé. Imagine se fosse um Big One. Republica Dominicana e Jamaica, embora um pouco melhores, ainda deixam muito a desejar quando essas porcarias aparecem por lá.

Ainda bem, sabe-se lá por que, faz muito tempo (alguns séculos) que não nos visitam. Desconfio que não nos sairíamos muito melhor do que eles. Basta ver o que qualquer chuvinha mais barulhenta é capaz de realizar em nossas ruas e bairros, sem privilégios para ricos ou pobres.

O Matthew passou lá pela Flórida – USA também, mas não logrou matar tantos, só uns quarenta ou cinquenta, não por ter sido mais bonzinho, mas muito porque lá eles estão infinitamente mais preparados para esses mau humores universais, nossos  e de nossos irmãos haitianos, cubanos, africanos etc.

Mas tenho a sensação que essas ONGs (não só essas, claro) adoram os Matthews da vida. Os caras chegam a salivar quando falam da necessidade dos coitadinhos dos haitianos (cubanos não, porque eles ainda não deixam as ONGs entrarem por lá, sobretudo as naturais do Tio Sam) e em seguida pedem grana para cumprir a missão de ajuda-los, esses desesperados incapazes. Não me surpreenderia se soubesse que eles até oram pedindo-os a Deus.

Fazendo uma flexãozinha mínima, do ponto de vista de um velho (mas ainda vivo) missionário e captador de recursos, não seria o caso dessas missões, digo ONGs, estarem prontas para operações de salvamento? Afinal, elas (as intemperes climáticas, guerras, epidemias, incêndios, etc.) não costumam avisar.

Os melhores mecanismos de prevenção estão longe da precisão, às vezes avisam um furação na escala Categoria 5 e chega um ventinho mixuruca, noutras preveem um Categoria 2 e chega um 5.

Ceis já imaginaram se houvesse um incêndio lá no Hospital das Clínicas (aconteceu algumas vezes) e o Corpo de Bombeiros, ao invés de sair a toda sirenando por aí, postassem no feici algo mais ou menos assim: “Olha gente, tá pegando fogo lá nas clínicas. Sabemos que há vitimas fatais e outras podem surgir.

Se cada um nos ajudarem doando no mínimo R$ 80,00, via Pay-Pal ou Pag-Seguro, quem sabe não chegaríamos lá a tempo de salvar umas camas e pinicos, lá? Ajude-nos a salvar umas vidas lá, seu muquirana”. O que aconteceria, nesse caso? Ridículo né?

Meu, esses caras deveriam estar prontos, próximos ou mesmo vivendo nos lugares onde isso costuma a acontecer, treinados, equipados e em condições para fazer o socorro, né não? Mas essa não é a realidade deles. Já testemunhei o caos dentro de algumas dessas ONGs quando eles precisam enviar uma ou mais equipes para algum lugar.

A regra nas organizações brasileiras é a improvisação. As europeias e norte-americanas funcionam melhor, claro, mas seus escritórios aqui tendem a não seguir rigorosamente seus manuais internacionais.

Sem falar não falta de ética dessas organizações ao fazerem essas campanhas em cima do laço. Obviamente, estão aproveitando o momento ocasionado pelos Matthews para faturar geral.

Não digo que não façam o trabalho, em geral fazem, mas boa parte da grana será incorporada ao budget geral, que inclui aluguel, salários, encargos e benefícios, fora o carro do chefe, etc., salvo engano e isso é antiético e mentira.

Oh, quando vejo essas organizações agindo assim, fico triste. Mais ainda quando algumas delas abrigam gente conhecida e até pseudo amigos.  Papai do Céu e eu não aprovamos essa metodologia. Se não for por isso, poupem seus contribuintes dessas vergonhas, ao menos, por favor.

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Os indivíduos financiam as organizações da sociedade civil

“Passei a maior parte dos anos em que milito na área do desenvolvimento envolvendo a comunicação com nosso público e a captação ética de recursos pregando a importância das pessoas ou indivíduos como o alvo principal do nosso trabalho. Em 2014 conheci o Marcelo Estraviz, pessoalmente, e ele confirmou partilhar das mesmas crenças, nesse sentido. Portanto, é com prazer, que compartilho aqui o artigo dele, originalmente batizado com o título “Os Indivíduos”, escrito a quatro mãos com o João Paulo Vergueiro e publicado no site do Marcelo. Eles escreveram o que eu gostaria de ter escrito”.

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São os indivíduos que financiam as organizações da sociedade civil. E vamos explicar detalhadamente isso, agora.

Escrito por João Paulo Vergueiro e Marcelo Estraviz

Essa afirmação, surpreendente para muitos aqui no Brasil, foi inicialmente comprovada na edição 2012, e agora confirmada na versão 2014, da pesquisa TIC Organizações Sem Fins Lucrativos.

A conclusão da pesquisa é de que 53% das organizações brasileiras recebem doação voluntária de pessoas físicas. O resultado é fundamentalmente positivo pois esse é o modelo no mundo, e agora o observamos também no Brasil.

Como vamos ver mais adiante, nos Estados Unidos, país em que talvez o Terceiro Setor seja o mais desenvolvido do mundo, os indivíduos respondem por 70% do financiamento das organizações, e na Inglaterra não fica muito longe disso, assim como em outros países.

Com a pesquisa TIC, finalmente temos fundamentos para concluir que o Brasil não está muito distante dos países desenvolvidos e democráticos, quando falamos em financiamento da sociedade civil, ainda que até hoje não tivéssemos instrumentos para comprovar isso. A pesquisa TIC muda esse cenário.

E, para aqueles que atuam com captação de recursos para organizações da sociedade civil, o resultado da TIC é ainda mais promissor, pois reforça algo que é defendido há muito tempo no país, e que já é realidade no resto do mundo desenvolvido e democrático: é a sociedade civil que financia as suas próprias organizações.

No entanto, até hoje, muitos dos atores que fazem parte do Terceiro Setor sempre acreditaram que nossas organizações eram majoritariamente sustentadas por empresas ou pelos governos, em suas várias instâncias, o que agora se comprovou falso.

Neste texto, vamos entender um pouco desse cenário, conhecendo as realidades mundiais e a brasileira, e discutindo o resultado da pergunta “Origem do Recurso das Organizações da pesquisa TIC”.

O financiamento da sociedade civil no Mundo

Os Estados Unidos são o país onde o modelo de financiamento da sociedade civil é mais consolidado e, depois de tanto tempo das organizações americanas pedindo doações para os indivíduos, é onde essa prática também mais se desenvolveu.

Por lá, no ano de 2013, e em todo o país, foram doados 335 bilhões de dólares para as organizações da sociedade civil, mais de 835 bilhões de reais (a considerar o câmbio do início de 2015).

Destes 835 bilhões, 72% foram doados por indivíduos, que acreditam nas causas das organizações e fazem transferências voluntárias de recursos financeiros, seja de forma recorrente, todos os meses, ou pontualmente.

Além dos 72% doados diretamente, mais 8% foram doados a partir de legados, que é o patrimônio deixado em testamentos por indivíduos que faleceram no ano de 2013.

Com isso, portanto, temos 80% de tudo o que foi doado para organizações da sociedade civil dos Estados Unidos, em 2013, tendo origem em indivíduos, um resultado bastante considerável.

Essa mesma pesquisa, realizada nos EUA há mais de 50 anos, também mostra que o restante do recurso recebido pelas organizações tem origem em outras ONGs – as Fundações (15%), e empresas (5%).[1]

Na Inglaterra, uma das economias mais desenvolvidas da Europa, o padrão não é muito diferente. A última pesquisa conhecida sobre o país, divulgada em 2013 e realizada pela Charities Aid Foundation (CAF) e pelo National Council for Voluntary Organisations (NCVO), indicou que o total doado pelos indivíduos chegou a quase 10 bilhões de libras, o que supera 40 bilhões de reais quando utilizamos o câmbio de janeiro de 2015.

Uma outra pesquisa, realizada pela organização Directory of Social Change (DSC), apontou que, de tudo que uma organização da sociedade civil britânica tem de financiamento, apenas 2% é originário de doações realizadas por empresas, um percentual ainda menor que o verificado na pesquisa sobre as organizações americanas.

O financiamento das organizações no brasil

Não existem pesquisas consolidadas sobre o quanto é doado no Brasil, e qual a origem das doações.

O país, apesar da existência secular das organizações das sociedades civis (as primeiras Santas Casas surgiram logo após o descobrimento), não dispõe de pesquisas que quantifiquem de onde vêm o recurso que é doado para as 303 mil organizações do país. Ou melhor, pesquisas existem, mas elas são sempre segmentadas, estudam uma ou outra fonte de financiamento, mas não se analisam as diversas fontes, como se fez na atual pesquisa TIC.

Por exemplo, a pesquisa “Doadores no Brasil”, de 2011, resultado de um trabalho desenvolvido pela empresa RGARBER com a organização ChildFund Brasil, apontou a existência de 17 milhões de doadores recorrentes no país, que contribuíam com uma média de 25 reais por mês.

Nesta pesquisa, estamos tratando de doadores individuais, e o valor total doado no país em 2010, para organizações da sociedade civil, chegava a cinco bilhões e quinhentos milhões de reais.

Já nas doações corporativas, aquelas realizadas por empresas com objetivo de financiar projetos ou a operação das organizações da sociedade civil, o Censo GIFE 2012 trouxe um resultado muito mais modesto: apenas 26% das grandes fundações e instituições corporativas e familiares realizam doações para organizações da sociedade civil. De um total que chega a 2 bilhões e 200 mil reais, esse percentual significa pouco menos de 600 milhões de reais por um ano, um total muito pequeno.

Ainda assim, nenhuma das duas pesquisas podem ser entendidas como definitivas: o fato é que no Brasil não há séries históricas e completas sobre quanto é doado para as organizações da sociedade civil, apenas alguns indicativos, que nos ajudam a entender o cenário, mas não nos proporcionam ver o todo.

A pesquisa

A pesquisa TIC Organizações sem fins lucrativos 2014 é, portanto, um marco. Primeiro porque ela resolve um impasse no que se refere às pesquisas brasileiras envolvendo terceiro setor: há pouca série histórica, há muita descontinuidade.

Segundo porque reflete finalmente o que os profissionais do campo da captação já intuíam: quem financia prioritariamente a massa das organizações brasileiras é o individuo. Nem de longe são as empresas (que estão em quinto lugar entre as fontes de recursos pesquisadas) nem o governo federal, que está em oitavo na lista.

Para um conjunto pequeno de organizações urbanas, focadas em direitos, politizadas e bastante estruturadas, o financiamento internacional sempre foi a principal fonte. Já passou de uma década onde o que se fala é sobre a crise de financiamento que estas vivem, já que a cooperação internacional tem migrado (sensatamente) para outros países mais necessitados.

Se somos uma Belindia, como algum economista alguma vez disse, essa mistura entre Bélgica e Índia, parece que a cooperação internacional deixou de nos ver como Índia e passou a nos ver como Bélgica.

Mas o que a pesquisa aqui demonstra é que os chamados organismos internacionais não representam hoje mais de 2% do financiamento do setor. Infelizmente não temos dados históricos para comparar se esse número foi muito maior nas décadas de 80 ou 90. Provavelmente foram maiores que hoje, mas não deviam superar os atuais quase 50% do que doam os indivíduos para as organizações. A continuidade dos levantamentos a cada dois anos deve provavelmente trazer o que ocorre em outros países: há oscilações, há aumentos e diminuições de participações de empresas e governos, de acordo com as ondas econômicas, intervencionismos e inclusive as modas. O que não muda é o envolvimento do cidadão comum no processo.

Mas não estamos aqui para falar de previsões e sim de dados. Vamos a eles novamente.

O primeiro lugar nas origens de recursos está nas doações voluntárias de pessoas físicas. O que nos termos técnicos da captação de recursos denominamos de doações avulsas. Isso é aquele cidadão que foi chamado a doar por primeira vez e algumas vezes acaba sendo a única vez, porque a própria organização não tem estrutura ou capacidade de fidelizá-lo com outras doações.

Em geral essas organizações são aquelas que trabalham solicitando como uma eterna primeira vez, mesmo quando por vezes o doador é o mesmo. Basta imaginar uma igreja que todo domingo pede para que circule a sacolinha. O doador que coloca ali suas moedas ou notas pode já ter colocado dinheiro na missa do domingo passado, mas para aquela congregação o entendimento é de que se trata de uma doação voluntária e portanto nova, a cada vez que o fiel contribui. Organizações mais preparadas tecnologicamente ou mesmo com uma certa gestão mais profissional percebem formas de fidelizar o doador.

Aí entra o segundo colocado na mesma pesquisa, as mensalidades e anuidades pagas. Também em uma faixa próxima a 50% dos entrevistados, esse mecanismo está presente nas organizações como uma opção que garante muito provavelmente o custeio das atividades cotidianas. São ONGs com uma característica associativista, baseada em recursos provenientes de defensores da causa, e algumas vezes até sócios mantenedores por interesses de pertencimento, como os Rotarys ou Lyons.

O que chamamos em captação de doações recorrentes é na verdade a forma mais profissionalizada de garantir a sobrevivência das organizações que defendem causas.

Um Brasil mais estruturado no seu terceiro setor teria esta origem (as doações recorrentes, ou como denominado na pesquisa, as mensalidades e anuidades) como a principal fonte de ingresso. Pois isso representa uma cidadania sendo exercida em sua plenitude: cidadãos que não só conhecem seus direitos e deveres como selecionam as causas que defendem, continuamente, de forma transparente e associativa.

As pesquisas anteriores já citadas, tenderam, até por falta de dados, a destacar a presença da iniciativa privada no financiamento do terceiro setor brasileiro. Isso não foi aleatório. São estas empresas que tem maiores condições de divulgar seus próprios feitos. Suas assessorias de imprensa e seus balanços anuais mostram que fazem filantropia e investimento social privado.

Já a Dona Maria e o seu João, com seus centavos, não tem como divulgar seus atos, nem pretendem fazê-lo. Acontece que são 17 milhões de donas Marias doando centavos, como mostra a pesquisa da ChildFund. Se formos analisar as possibilidades de crescimento de recursos entre as diversas fontes de financiamento, a única frente capaz de dobrar seu tamanho (e continuar crescendo) em pouco tempo é o conjunto de indivíduos.

As empresas tem como foco, o lucro. Não há no horizonte de suas discussões recentes nenhum sinal de ampliação de seus investimentos sociais. Nas últimas décadas o valor de suas contribuições oscilou muito pouco, e em geral para baixo em períodos de crise. Uma pesquisa na Austrália, analisando os investimentos das empresas na área social nos últimos 30 anos mostrou que o valor atualizado se manteve.

No Brasil, o único número que mostra crescimento efetivo é o dos recursos incentivados. As empresas doam e patrocinam muito mais do que nos anos 80, quando não havia a Lei Rouanet, a lei de incentivo mais conhecida, focada em cultura.

Mas a pergunta é: quando a lei acabar, continuarão doando? Terão aprendido a importância de investir na cultura ou pararão de fazer porque não existe mais o incentivo? Na Austrália essa pergunta foi respondida com clareza: as empresas param de doar quando não há mais o incentivo, portanto os governos pararam de oferecer incentivos já que quem estava pagando a conta no final eram eles, os governos.

Falando em governos, também não se vê no futuro próximo um aumento significativo, que chegue a aumentar 50%, muito menos a dobrar de tamanho. A pesquisa mostra que o governo municipal é uma frente importante de recursos, o que se vê como uma política acertada desde a constituição de 88, com a ampliação da municipalização das frentes sociais (saúde, educação, etc.). As aproximadamente 26% de ONGs que se beneficiam de convênios municipais (terceiro colocado, logo depois das duas categorias de doações de indivíduos) são aquele terceiro setor quase estatal ou fornecedor do estado. As creches conveniadas, as unidades de saúde cuja gestão são das santas casas ou outros hospitais filantrópicos

Em um país mais capitalista como os EUA, estas seriam simplesmente fornecedores, talvez até mesmo empresas. Em países cuja tendência é mais focada no Welfare State, na Europa Ocidental, estas organizações não existiriam, seriam Estado puro. Fazemos essa diferença porque em geral no Brasil são organizações cujo financiamento é prioritariamente estatal e uma parcela pequena provem de iniciativas isoladas como rifas, bazares e pequenas atividades de arrecadação. Não há exatamente uma causa a se defender, talvez, no máximo, uma certa territorialidade. Mas enquanto estas não se posicionarem como organizações do terceiro setor, cuja força está em seu associativismo, perderão para uma posição de reféns para o poder local. Neste caso, a nosso ver, melhor seria assumirem o papel de fornecedores e pronto, sem representatividade. Mas aí entraríamos numa discussão ideológica que não cabe aqui neste paper.

Voltemos ao tema dos indivíduos, o que nos fez querer escrever este artigo: A situação das organizações brasileiras está muito mais para um Greenpeace, que arrecada somente com indivíduos, do que alguma organização, que arrecada com empresas. Estamos muito mais próximos de um Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tem mais de 170 mil doadores mensais, do que uma organização de saúde que necessita de recursos de governo. E falando em MSF, somos hoje muito mais um país exportador de doações (já que os recursos dos doadores dos Médicos sem Fronteiras vão atualmente para países na Africa) do que importadores de doações, como éramos faz 30 anos e a cooperação internacional nos via (e éramos) de terceiro mundo.

É por isso que saudamos a iniciativa do CETIC para que se mantenham estas e novas perguntas para o setor.

Cada vez mais interpretando os caminhos que percorrem essas organizações do Brasil nos mundos da tecnologia disponível. Como está o envolvimento dos doadores nas páginas eletrônicas de doação destas organizações? Como se ampliam as captações das entidades através de sua presença e pedidos nas redes sociais? Se hoje 1 a cada 4 organizações fazem pedidos de captação nas redes onde estão, quais esses resultados e como eles estão se comportando em comparação aos mecanismos tradicionais de doação?

Falta portanto que sigamos pesquisando as novas sacolinhas cada vez mais virtuais das organizações. Esse passar o chapéu que hoje se faz com gateways de pagamento. Caminhando a passos largos para os próximos 10 bilhões de reais anuais da força dos brasileiros comuns, doadores ocultos dentro e fora da web.

(Artigo escrito para a publicação da pesquisa  TIC ORGANIZAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS 2014 realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação CETIC.BR)

Link para a pesquisa:

TIC Organizações sem Fins Lucrativos – 2014

Link para o dado específico, estudado neste artigo:

D6 – PROPORÇÃO DE ORGANIZAÇÕES POR FONTE DE RECURSOS

Bibliografia

Censo GIFE 2012

Giving USA 2014

Company Giving in the UK – DSC Almanac: 2013

Pesquisa Doação no Brasil 2011 – ChildFund Brasil e RGARBER

UK Giving 2012 – Charities Aid Foundation (CAF) e National Council for Voluntary Organisation (NCVO)

Autores

João Paulo Vergueiro, Presidente da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos e professor assistente na FECAP – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado.

Marcelo Estraviz Rodrigues, Presidente do Instituto Doar, fundador e ex-presidente da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos.

[1] Não se considera recurso publico como doação, nos Estados Unidos e nos demais países, por se tratar, conceitualmente falando, de transferência de renda realizada pelo governo.

Ilustração: People, Hudesa Kananow http://www.hudesakaganow.com/

 
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contribuir-e-uma-arte

Lou H. Mello

Em um de seus livros, Ruben Alves conta sobre sua luta, durante muito tempo, buscando aprender a tocar piano até, enfim, descobrir a verdade: “estava tentando colocar o piano dentro de mim”. Essa revelação tornou-se ainda mais relevante, para mim, por eu ter feito a mesma descoberta, ou seja, também fiz essa tentativa impossível.

O verdadeiro artista, com dom, talento e consciência de sua arte é um mestre. Seu talento está dentro de si e seu aprendizado consiste em aprender e/ou conseguir colocá-lo para fora.  

A Bíblia relata uma história sobre dois filhos de Adão. Depois de colher suas safras, os dois apresentaram-se diante de Deus com suas contribuições respectivas. Segundo o relato, Deus agradou-se da contribuição de Abel, mas rejeitou a contribuição de Caim. Imagine dois músicos apresentando-se a uma plateia. Um o faz com arte e outro apenas por dever. Qual dos dois agradará ao público? Qualquer pessoa pode tocar um instrumento musical, nem todos poderão fazê-lo com arte e maestria.

Na verdade, todos podem fazer tudo, alguns farão algumas coisas com arte, com talento, carisma e como verdadeiros mestres, outros não.

Você leva seu carro ao mecânico. Talvez, seu mecânico seja mais do que um hábil conhecedor do seu auto. Talvez ela seja um mestre e lhe surpreenda indo muito além do esperado ao deixar a arte brotar do seu interior. No meu tempo de menino, conheci muitos mestres: sapateiros, pedreiros, eletricistas, esportistas, encanadores, agricultores, padeiros, mecânicos, costureiras, alfaiates, pintores, letristas, bombeiros, policiais, médicos, professores, etc…, todos capazes de realizar suas tarefas com arte. Havia muitos outros profissionais, alguns muito bons, entretanto faltava-lhes algo: não eram mestres. Não havia arte neles.

Um velho mestre disse: “Um mestre é sempre um mestre, não importa qual seja a sua arte”. É mais fácil perceber um mestre quando sua arte é a música, a pintura, a literatura e a escultura. Mas há muitos mestres anônimos por aí, exercendo sua arte nos mais variados campos como o esporte, o lazer, as profissões liberais, enfim em qualquer área. A identificação está na liberação procedente do nosso interior e é colocada para fora de forma espontaneamente.

Amar é uma arte, como nos ensina Erich Fromm em seu maravilhoso livro “A Arte de Amar”.  Ensinar é uma arte diz Ruben Alves. Tudo pode ser feito com arte que vem de dentro, do íntimo e das nossas entranhas.

Contribuir é uma arte, quando é realização da alma e começa em nosso interior. Geralmente é sacrificlal, como a contribuição narrada  por Jesus da mulher capaz de dar tudo que possuía ao doar sua única moeda. Quando um homem perguntou a Jesus o que era necessário fazer para segui-lo ouviu, finalmente: “Vá e dê tudo aos pobres”. Em outras palavras, contribua como um mestre, pois contribuir é uma arte. Um mestre na arte de doar obedece a seu impulso e doa sem preocupar-se com o futuro.

Todos podem dominar a arte de contribuir. Será melhor não fazê-lo, se não puder fazer de todo coração. O prazer da verdadeira contribuição só é comparável ao do pintor quando vê sua obra acabada e aclamada, ou do músico ao ouvir os aplausos de aceitação de sua arte, ou do escritor quando sua obra não para nas prateleiras das livrarias. É o momento do êxtase e  da liberdade.

Contribuir é uma arte e um ato de libertação.   

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A Olimpíada do Rio foi bem administrada

Managing Olimpics Games

Stephen Kanitz

 As Olimpíadas Foram Bem Administradas. Surpresa?

A Administração de Olimpíadas é um assunto que muito se estuda nas faculdades de administração do exterior, por ser o evento administrativo mais complexo da humanidade.

120.000 pessoas precisam ser coordenadas, num espaço de 2 semanas, com precisão de minutos, pois atrasos não são permitidos.

A cada evento olímpico aprendemos alguma coisa.

Temos até o termo Legacy, para designar o que cada olimpíada, a de Londres, Grécia, Alemanha tem a nos ensinar, e as aplicamos nesse evento do Rio.

Não foi uma administração brasileira que vimos, mas um legado do aprendizado de todas as Olimpíadas anteriores.

Administração é basicamente o ensino de boas práticas coletadas, estudadas, adaptadas e repassadas a gerações seguinte.

É muito triste ver a surpresa geral da nação brasileira com o fato das olimpíadas do Rio terem sido bem administradas.

Essa surpresa decorre do fato de que, nos 4 anos que tivemos de antecipação, nenhum jornalista brasileiro fez uma única matéria sobre Administração de Olimpíadas.

Nenhuma revista de negócios ou jornal procurou um único administrador que nos teria possibilitado antever e ter confiança que esta olimpíada funcionaria.

Conheço praticamente todos os principais jornalistas desse país, e todos sabem que sou formado em administração, e posso afirmar que somente um me procurou para falar sobre High performance management (HPM).

Artigo que acabou não sendo publicado.

Em outros países aprendizados com eventos como essas Olimpíadas são usados por empresas de administração, aprendizados sobre motivação, busca pela excelência, organização de desempenho, etc.

Nada disso aqui é repassado.

Não seremos melhor administrados apesar da Olimpíada do Rio ter sido bem sucedida.

Nossos clubes esportivos brasileiros, todos quebrados, nada aprenderão.

Nada aprendemos, mais uma vez.

E acham que assim o Brasil, como uma avestruz, dará certo.

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Bilionário monta curso que ensina a melhor maneira de pedir dinheiro

Por Edson Ribeiro

Como parte do plano para morrer sem dinheiro, o bancário e magnata T. Denny Sanford gastou mais de um bilhão de dólares com filantropia e ainda visa ser o melhor do mundo nisso. Apesar de ser um dos doadores com os bolsos mais cheios (a própria FORBES estima em cerca de 1,4 bilhão de dólares) e realizar doações de grande impacto, sua equipe é formada apenas por um secretário e um gerente. Todos os cheques são provenientes de sua conta pessoal.

Sanford foi, no mundo, uma das pessoas que mais arrecadaram dinheiro para causas nobres. Com esse histórico, ele, em parceria com a Universidade de San Diego, na Califórnia, criou, em 2014, o Instituto Sanford of Philanthropy, que tem o objetivo de formar filantropos. É, basicamente, um segmento sem fins lucrativos com abundância em sólidos programas destinados a gestores, líderes e administradores, que vai de porta em porta. “Uma característica única sobre mim é que gosto de encontrar espaços vazios”, disse Sanford. “E não há nenhuma outra sensação que se equipare a isso”.

O Magnata ajudou no desenvolvimento do livro “Cause Selling: The Sanford Way” (Motivo de venda: um caminho para Sanford), em português. Basicamente um livro que auxilia nos princípios e nas práticas mais eficazes na captação de recursos de acordo com o tempo, com a gestão do território e com a arte de lançar uma causa e construir relacionamentos com doadores.

No segundo semestre de 2014, o Instituto Sanford of Philanthropy fundiu suas teorias às práticas em seminários de captação de líderes locais sem fins lucrativos. Já ocorreram cerca de oito eventos, reunindo 300 participantes, cada. Por volta de um mês, a Universidade John F. Kennedy, próxima a São Francisco, foi uma das que realizaram o evento. O enfoque da universidade foi voltado ao serviço comunitário, certificando que seus alunos cumprissem cerca de 30 horas de serviço antes da graduação e oferecendo, ao longo da região, aconselhamento psicológico e de saúde mental. “O que observamos nesta área foi uma paixão pela filantropia, principalmente partindo desta nova geração”, disse a presidente da John F. Kennedy University, Debra Bean. “Eles têm um verdadeiro sentimento de responsabilidade corporativa, mas não necessariamente sabem a melhor maneira de converter a paixão pela filantropia em uma organização sustentável e sem fins lucrativos”.

Toda essa expansão se tornou possível pelos antigos investimentos de Sanford. Primeiro, ele comprou um banco, que passou a reconstituir créditos de seus clientes. Hoje, ele canaliza dividendos com suas instituições de caridade associadas, grande parte voltada para causas infantis e pesquisas médicas. Uma das doações mais notáveis foi de cerca de um bilhão para a Sanford Gealth, uma rede nacional de hospitais norte-americanos sem fins lucrativos. Mas apesar de toda essa generosidade, Sanford diz que ainda é mais rico do que quando começou a ganhar muito dinheiro. De qualquer forma, sua maior vontade é direcionar todo o dinheiro à caridade,  eventualmente.

Fonte: Instituto Filantropia

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A liderança por meio de mentoreamento


A liderança por meio de mentoreamento enfoca o desenvolvimento pessoal das pessoas, através do poder de um relacionamento humano dentro de um encontro informal de vida-sobre-vida. Esse tipo de liderança funciona dentro de um relacionamento plano, e não um que seja hierárquico, em que as pessoas sejam controladas e recebam ordens, ditames e comandos que venham de cima. Líderes mentoreadores se conectam com as pessoas e se comprometem com elas a fim de acompanhá-las em sua caminhada. Fazem-se presentes para oferecer direção e apoio que ajude pessoas a alcançar algum alvo específico de vida ou liderança. O que é que caracteriza um relacionamento de mentoreamento? Deixe-me indicar pelo menos duas características:

  1. É uma liderança transformadora. Não se limita a ser meramente transacional. Líderes transacionais funcionam dentro de um sistema e da estrutura da mesma.  Lidam com os desafios e necessidades dos seus seguidores, lançando mão da arte da política e do toma-cá-dá-lá.

São sensíveis às preferências das pessoas, procurando sempre oferecer-lhes aquilo de que tenham necessidade. A abordagem deles parece atraente aos apetites consumistas dos homens e mulheres da atualidade, sempre à procura de algo para satisfazer os desejos do coração. Esses líderes se preocupam com a satisfação das pessoas.Os líderes transformadores “desenvolvem as vidas das pessoas ao seu redor, oferecendo-lhes estímulo intelectual e apresentando-lhes desafios significativos”.

A liderança mentoreadora não mantém a situação atual. Ela trabalha para mudar os liderados, especialmente quanto à formação do seu caráter para que desejem ser conformados à imagem de Jesus Cristo.

Líderes transformadores oferecem consolo aos atribulados, mas não hesitam em cutucar os conformistas. Sua tarefa não é produzir uma grande igreja e sim, desenvolver uma comunidade de pessoas que ousem viajar pelo caminho menos popular e nadar contra a maré.

Além disso, a liderança por meio de um mentoreamento transformador envolve mudanças radicais quanto à ênfase no processo de liderar.

Em primeiro lugar, é uma mudança do informar para o investir.Hoje em dia, o treinamento e orientação de líderes ministeriais geralmente pende para o lado da transferência de informações.

Treinados por líderes de grandes ideias no seminário e na universidade, tornam-se competentes para fornecer informações que desenvolvam “cristãos intelectuais”.

Devido à proliferação de congressos e conferências cristãs, programas de discipulado baseados em textos impressos têm desenvolvido cristãos muito bem informados quanto a todos os mais conceituados recursos e matérias de discipulado. Infelizmente, uma semana após o congresso eles se lembrarão de apenas 10% do que ouviram, e pouco disso será posto na prática em sua maneira de viver e liderar.

A liderança por mentoreamento investe no desenvolvimento de pessoas. É um processo lento de se comunicar os recursos da graça através de cuidar e confrontar, conversar e capacitar, instruir e entusiasmar, durante horas em que comam e bebam juntos, caminhem e viajem, orem e ministrem juntos.

Jesus investiu três anos em um pequeno número de discípulos escolhidos – compartilhando com eles histórias e parábolas, enviando-os a experimentar o ministério, repreendendo-os e reafirmando o seu amor por eles, orando e intercedendo pelo seu crescimento e sua proteção do Maligno.

Líderes transformadores fazem uma diferença nas vidas de outros por pacientemente investir suas vidas em uns poucos que se disponham a submeter-se à sua orientação. Não adotam uma abordagem do tipo “conserto relâmpago”.

Como no caso do fazendeiro, esses líderes transformadores esperam com paciência enquanto vão cuidando e cultivando aquilo que semearam. Mais tarde, as pequenas sementes do mentoreamento investido nas pessoas produzirão um grande crescimento.

O começo será lento, mas ao ganhar impulso, o processo crescerá como bola de neve. Dessa maneira, a vida e a liderança de líderes mentoreadores poderá ir passando de uma geração para outra.

A segunda mudança é do administrar para o servir de exemplo.

A liderança transacional enfoca a administração de programas. Muitos desses líderes se encantam com os programas badalados que prometem megacrescimento da igreja, como, por exemplo: PDL, G12, Willow Creek, etc.

O que eles deixam de entender, porém, é que não importa a excelência dos programas, se as pessoas não estiverem crescendo espiritualmente, a liderança certamente irá fracassar. Os programas serão bons somente na medida em que resultarem em pessoas crescerem no seu amor pelo Senhor.

Os líderes transformadores exemplificam aquilo que ensinam. Servem de modelos do que seja a vida em Cristo. Enfocam o desenvolvimento de pessoas por meio da cultivação da sua espiritualidade.

Não existe melhor maneira de se fazer isso do que seguir o exemplo da vida de Cristo. Paulo disse em várias ocasiões, “suplico-lhes que sejam meus imitadores” (1Co 4.16-17). Podia dizer isso sem hesitar porque ele próprio era imitador de Cristo (1Co 11.1).

Os mentores lideram por exemplificar a vida de Jesus. Trata-se de uma liderança imitadora que influencia outros pela maneira em que o próprio líder conduz a sua vida.

  1. É uma liderança relacional.

Muitos pensam na liderança em termos de tarefas a serem realizadas. Por essa razão, muitos líderes se azafamam para cumprir suas tarefas ministeriais. Enfocam os seus alvos. Dão suma importância ao seu desempenho. Ora, todas essas práticas são importantes para quem lidera. Mas se os líderes não construírem as suas tarefas em torno de relacionamentos autênticos, o produto de todo esse trabalho muitas vezes cairá em pedaços.

Grandes igrejas começam a entrar em declínio por falta de relacionamentos entre os líderes. Rachas em igrejas geralmente resultam de conflitos entre os líderes. Líderes relacionais não ignoram a tarefa a ser realizada. Mas eles também tocam nas vidas das pessoas, não por meio do seu carisma mas através do caráter; não pela sua competência mas pela genuína preocupação com o crescimento das pessoas no Senhor.

Os líderes relacionais trabalham com uma equipe. Líderes que mentoreiam são “jogadores de equipe” que formam um relacionamento caracterizado por cuidar e capacitar. Aprendem a dar ouvidos um ao outro. Confiam e se tornam transparentes. Para que isso aconteça, os líderes precisam deixar de simplesmente presidir a uma junta, ao invés disso desenvolvendo uma comunidade de líderes. Precisam esforçar-se para criar um clima em que reine a graça de tal forma que as pessoas se sintam seguras para ser elas mesmas.

Os líderes devem demonstrar o seu cuidado, não somente por se interessar pelo desempenho das pessoas, mas também por se preocupar com suas vidas pessoais. Mentores trabalham ao lado daqueles a quem estejam liderando.

O Caminho do Progresso: O seu desafio é que se cerque de pessoas que possam ajudar você a desenvolver o caráter; possam servir de treinadores para capacitar você com relação à sua vida e desafios como líder; e possam cuidar de você nas horas de problema e dor. Deixe que eu sugira alguns passos para ajudar você a se capacitar para ser um líder mentoreador.

  • Encontre um mentor. Líderes mentoreadores são pessoas que por sua vez, estão sendo mentoreadas. Viver sob mentoreamento deve ser algo para a vida inteira. Mesmo John Stott, quando já tinha mais de 80 anos, disse que se submetia a um grupo de presbíteros a quem prestava contas, considerando-os seus amigos, parceiros e companheiros de viagem no mesmo caminho do Senhor.
  • Forme relacionamentos com a sua equipe de liderança.

  • Compartilhe os seus insucessos. Mentores aprendem a não esconder as suas fragilidades.
  • Comece a investir em uns poucos jovens para ajudá-los a crescer por meio do discipulado.
  • Ÿ Melhore a sua capacidade de interagir com pessoas. Fale menos; escute mais. Toque nos corações das pessoas; não se contente com simplesmente ensinar coisas para suas cabeças.
  • Ÿ Permita que Deus mentoreie você todos os dias. Gaste tempo em silêncio e solidão, meditação nas Escrituras, autoexame e oração.

Tradução: Lowell Bailey. Fonte: Mentoring for Life & Leadership (Mentoreamento para Vida e Liderança) por Herman A. Moldez © 2009 publicado nas Filipinas por Church Growth Ministries, Inc. (CGM) e Action International Ministries (ACTION). Páginas 18-23 editadas e reproduzidas com permissão. E-mail do autor: phmentorlink@gmail.com

Kickante – financiamento coletivo

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Much Money

Fonte: Wikipédia

Em uma série de três postagens, você verá documentos originários da enciclopédia digital Wikipédia sobre a Kickante.

Após as três, postarei comentando a respeito.

Kickante é uma plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) criada no Brasil em 2013, fundada pelos irmãos Candice Pascoal e Diogo Pascoal e liderada pela CEO e sócia Tahiana D’Egmont. Atualmente a empresa é uma das principais desse segmento no país com uma arrecadação acima de 4 milhões de reais em 2014

Origem

Posteriormente, especializou-se na arrecadação de fundos para ONG’s com atuação em organizações como WWF, Médicos Sem Fronteiras, Anistia Internacional, Cruz Vermelha e outras. Sabendo que os custos de uma arrecadação eram muito altos e após perceber o potencial do Brasil para o crescimento de negócios com financiamento coletivo, Candice juntou-se ao irmão Diogo, um desenvolvedor, para iniciar a Kickante.

Crescimento

Com experiência em financiamento de campanhas Candice Pascoal, juntamente com seu irmão Diogo Pascoal, que lidera uma equipe de desenvolvedores a partir de São Paulo, iniciaram a Kickante em outubro de 2013. Na época já havia outras plataformas semelhantes atuando no Brasil, a exemplo de Benfeitoria, Idea.me, Impulso, Movere, Pontapés, Kolmea e Catarse.

 

Os tipo de campanhas começadas na Kickante são diversos: companhias teatrais, bandas de música, startups, ONGs, atletas… A Fundamos e a Mountain Wolves são exemplos de campanhas na Kickante na área de startups, empreendedorismo digital. A Fundamos é uma ONG que busca financiamento para para alugar um prédio no bairro de Santo Amaro em São Paulo inteiramente voltado para locação desse tipo de empresas, o objetivo do projeto é a criação do maior campus tecnológico do Brasil. Na Mountain Wolves, o jovem João Vitor Chaves desenvolveu uma ferramenta computacional capaz de detectar as deficiências em um empreendimento através da análise de Big data, o software deve ser capaz de auxiliar os empresários na elaboração de seus modelos de negócios. O jovem lançou uma campanha para arrecadar fundos e custear sua participação no MITx Global Entrepreneurship Bootcamp promovido pelo Instituto de tecnologia de Massachusetts, evento cujo o seu projeto foi selecionado.

 

 

Modelo de negócio

Atualmente a plataforma Kikcante possui as quatro maiores campanhas de financiamento do terceiro setor brasileiro. De cada projeto, da arrecadação total, 12% ficam na plataforma. Nesse site um organizador pode iniciar uma campanha sem necessariamente ter meta mínima a atingir, pode ter sua campanha beneficiada a partir de qualquer valor arrecadado, os colaboradores têm a possibilidade de parcelar suas contribuições e há chances do organizador receber os recursos à vista.

Uma campanha pode ser iniciada em duas modalidades no site. O usuário criador pode optar pela campanha tipo “Tudo ou Nada”, nesse tipo deve haver uma meta mínima para a campanha, caso seja atingida, a organização recebe o valor arrecadado como desconto de doze por cento (12%), que é a parte retida pela plataforma. Caso o valor mínimo não seja atingido, as doações são devolvidas para os contribuidores. Na modalidade de campanha “Flexível” os criadores também estabelecem uma meta mínima, contudo, caso não seja atingida, podem receber o montante arrecadado fora dezessete e meio por cento deste total, parcela esta retida pela plataforma. Caso uma campanha do tipo “Flexível” arrecade o estabelecido na meta mínima a negociação prossegue entre criadores e a Kickante como no caso “Tudo ou Nada”. Todas as campanhas tem uma duração de pode variar de um a sessenta dias.

Recentemente a plataforma lançou uma nova alternativa chamada Clube da Contribuição Mensal, já comum nos EUA, agora sendo implantado no Brasil. Nesse método, a plataforma promete uma arrecadação contínua aos organizadores.

Co-fundador e desenvolvedor. Coordena uma equipe de desenvolvimento em São Paulo.

Candice Pascoal, co-fundadora

 

O Crowdfunding no Brasil

De acordo com o Banco Mundial essa modalidade de financiamento tem se tornado um mercado bilionário, somente o maior website na área, o norte americano Kickstarter já movimentou mais de 817 milhões de dólares desde a sua criação. Semelhantes ao Kickante, no Brasil existem cerca de 17 sites voltados para este fim, como o Catarse e Idea.me (criado fora do Brasil e popular em outros países da América do Sul). Segundo a atual presidente executiva da Kickante, Tahiana D’Egmont, o Brasil corresponderá, até 2025, a uma fatia de 10% de todo capital levantado em crowdfunding no mundo, estimado em 90 bilhões de dólares até este ano.

Referências

  1. Kickante: crowdfunding brasileiro diferente e com equipe em outros países – Startupi. Visitado em 2015-06-26.

 

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Reitor da UNCW é Fundraiser

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José “Zito” Sartarelli

Ricos deveriam financiar ensino, afirma brasileiro reitor nos EUA (Título Original)

Por João Fellet – @joaofellet Da BBC Brasil em Washington

 

Para José Sartarelli, brasileiro reitor de universidade nos EUA, ricos deveriam doar parte de suas fortunas para a educação.

Brasileiros ricos deveriam seguir o exemplo de norte-americanos e doar parte de suas fortunas para melhorar a educação do país, diz à BBC Brasil José “Zito” Sartarelli, reitor da Universidade da Carolina do Norte Wilmington (UNCW), nos Estados Unidos.

Tido como o primeiro brasileiro a dirigir uma universidade americana, Sartarelli afirma que muitos brasileiros ricos agem como se fossem “levar à tumba todo o dinheiro”.

“Na nossa cultura latina, esperamos que a educação seja provida pelo Estado, grátis. Agora, com o Estado em dificuldades, as pessoas de sucesso se voltam para proteger e investir na própria família”, critica.

Sartarelli foi escolhido reitor da UNCW em abril, em seleção com 95 candidatos. A instituição figura nos rankings das melhores universidades públicas do sul dos Estados Unidos. Nascido há 65 anos em Ribeirão Bonito, cidade com 12 mil habitantes no interior de São Paulo, ele migrou para a educação após uma carreira internacional no setor farmacêutico. Depois de passar pela Eli Lilly e pela Bristol-Myers Squibb, Sartarelli foi presidente da Johnson & Johnson na América Latina, Japão e Ásia-Pacífico entre 2001 e 2010. Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, em 1973, ele fez MBA e doutorado na Universidade de Michigan State, nos Estados Unidos, quando conheceu sua esposa, Katherine.

Sartarelli voltou ao meio universitário em 2010, desta vez como diretor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade de West Virginia, cargo que deixou neste ano. Em entrevista à BBC Brasil, Sartarelli defende que universidades se aproximem de empresas e diz que o Brasil abriu mão de investir em centros de excelência, isso terá um alto custo no futuro.

Ele afirma ainda: para que a universidade dirigida por ele possa competir com as melhores instituições americanas, será essencial atrair bons estudantes. Segundo o reitor, falta ao ensino brasileiro investir em excelência em algumas áreas, única maneira para a promoção de avanços na ciência

Leia os principais trechos da entrevista, concedida por telefone na última semana.

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BBC Brasil – O senhor tinha uma posição de destaque no mundo dos negócios. Por que resolveu se dedicar à educação?

Zito Sartarelli – Eu tinha alguns objetivos claros quando entrei na carreira corporativa: queria ter uma carreira internacional, atuar na área comercial e eventualmente ser o presidente ou gerente-geral de uma empresa. Depois de 30 anos, já tinha feito tudo isso.

Pensei que talvez fosse a época de voltar para área acadêmica e “give back” (devolver). Retornar e compartilhar com estudantes, pessoas jovens, tudo aquilo que aprendi.

BBC Brasil – Como a gestão de uma empresa se diferencia da gestão de uma universidade?

Sartarelli – Embora a liderança moderna nas empresas seja participativa, na área acadêmica é muito mais. Os professores todos têm uma influência muito grande, porque a definição do que nós entregamos para o aluno é feita por eles.

Na área corporativa, você tem bastante poder de fogo para contratar, desenvolver e também demitir pessoas.

BBC Brasil – O fato de ser brasileiro afeta de alguma forma o seu trânsito em universidades americanas?

Sartarelli – Os Estados Unidos são um dos poucos países onde pessoas como eu conseguem chegar aos mais altos níveis através da capacidade, do mérito.

Mas alguns podem ter visto minha contratação como “por que queremos ter um estrangeiro nessa posição?”. Por mais perfeito que meu inglês seja, tem sempre um resquiciozinho (de sotaque) que vão reconhecer.

BBC Brasil – Como compara o ensino superior no Brasil e nos Estados Unidos?

Sartarelli – No Brasil não conseguimos ainda fazer conviverem excelência e acesso.

O sistema de sucesso tem de permitir o acesso a todos os alunos competentes. Por outro lado, o país tem também que focar em algumas áreas específicas de excelência, onde vai ser muito difícil entrar, não vai ter proteção por minorias, onde você tem que ser realmente bom.

A única maneira de avançar a ciência é ter nível de excelência ímpar. Todos os países de desenvolvimento recente, especialmente na Ásia, têm tido uma preocupação muito grande em criar centros de excelência competitivos aos níveis mais altos no mundo. O que nós não temos feito.

Vamos pagar um preço mais alto no futuro, porque vamos continuar sendo copiadores, e não inovadores.

BBC Brasil – O senhor acha que o avanço de políticas afirmativas nas universidades públicas brasileiras afetou a qualidade?

Sartarelli – Não sei. Acho que a não focalização em excelência no Brasil começou há muito tempo, muito antes das políticas afirmativas recentes. Estou falando das décadas de 70, 80, 90.

Já se notava a proliferação de cursos em todo o lado, de baixo nível. Se houvéssemos feito isso e mantido grandes centros de primeira linha, de pesquisa, tudo bem. Mas não fizemos.

BBC Brasil – O senhor dirige uma universidade pública num país onde as universidades mais renomadas são privadas. Como concorrer com instituições que estão entre as melhores do mundo?

Sartarelli – Você tem que ter grandes estudantes. Quando eles chegam aqui, eu digo: “Não estou interessado em coletar sua anuidade. Quero que venham aqui para trabalhar duro”.

Vai ser muito importante minha habilidade em angariar fundos para bolsas de estudos, porque com elas vou conseguir atrair os melhores. Se você é um estudante de primeira linha nos Estados Unidos, vai fazer faculdades privadas sem pagar nada, com bolsas de estudo.

As grandes universidades públicas têm que fazer a mesma coisa. Se você traz grandes alunos, isso atrai grandes professores, porque eles querem ensinar os melhores. É um círculo virtuoso.

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O reitor afirma haver poucos exemplos de ricos no Brasil que sabem que não vão levar suas fortunas “à tumba”

BBC Brasil – O senhor doou US$ 100 mil para um programa de bolsas da Universidade de West Virginia. Acha que as doações, que são uma prática comum entre americanos ricos, deveriam desempenhar um papel maior no financiamento do ensino no Brasil?

Sartarelli – Sem dúvida alguma. O Bill Gates e outros foram recentemente à China falar sobre doações.

O número de doações que têm vindo do Oriente para grandes instituições americanas é muito grande. São ex-alunos asiáticos que fizeram fortunas nas suas terras de origem. Acho uma prática muito boa, que deveria ser incentivada.

Depois de ter criado grandes empresas de aço, o (Andrew) Carnegie (1835-1919) deu toda a fortuna dele para criar grandes bibliotecas em todo o mundo. O Bill Gates, a mesma coisa.

BBC Brasil – Por que isso não ocorre no Brasil?

Sartarelli – Na nossa cultura ibérica, esperamos que a educação seja provida pelo Estado, grátis. Agora, com o Estado em dificuldades, as pessoas de sucesso se voltam para proteger e investir na própria família.

Temos tido algumas exceções, como o Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), pessoas que sabem que não vão levar à tumba todo esse dinheiro. Mas muitos deixam fortunas para a família, que em uma ou duas gerações desperdiça tudo.

Eu doei porque tinha condições e achei que devia fazê-lo. Sou um produto também de bolsas de estudos. Recebi três ou quatro bolsas que me permitiram fazer o que sou hoje.

BBC Brasil – Há quem defenda que as universidades se aproximem das empresas e quem pregue que sejam completamente independentes. Com o senhor acha que deve ser a relação delas com o setor privado?

Sartarelli – Acho que ela deve existir, deve ser cooperativa. A universidade tem muito a ganhar com o mundo corporativo e vice-versa.

Nos Estados Unidos, as universidades que mais auferem dinheiro em termos de licenças comerciais são grandes universidades de pesquisa, como Yale, Stanford, Harvard. Essas universidades descobriram algumas coisas e hoje recebem royalties que são usados para mais pesquisa, bolsas de estudo.

O que não queremos fazer é transformar a universidade num curso profissionalizante. A universidade forma a pessoa como um todo: queremos que nosso aluno aprecie as artes, tenha um profundo conhecimento de ciências e também seja um profissional.

BBC Brasil – O senhor considera um dia trabalhar com educação no Brasil?

Sartarelli – Essas opções são sempre abertas. Adoro o Brasil e gostaria que estivéssemos muito mais avançados do que estamos.


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Consultor em Administração e Marketing para Organizações Cristãs

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