Mercado sem ética e os intermediários da doação

Jesus Cristo, após ensinar a multidão por várias horas, percebeu a fome e sede do pessoal e ordenou a seus discípulos para alimentar o povo. Eles ficaram perplexos, pois não havia onde adquirir alimentos e bebidas por perto e, muito menos dinheiro para compra-los. Procuraram entre a multidão e só encontraram 5 pães e dois peixes, levados por um menino precavido. Jesus já estava com aquela cara de “já sei, vão me falar de impossibilidades, de novo”.

Não deu outra, pois disseram: não há onde comprar e muito menos dinheiro para isso. Só temos cinco pães e dois peixes. Jesus estava ali e ninguém se deu conta desse detalhe, até então eles nunca haviam passado fome e mais, nunca se falou em “onde comprar e dinheiro para tanto”.

Claro que parafraseei o conhecido milagre da multiplicação, mal e porcamente, algo de tamanha importância e significado, particularmente na área teológica. Me atrevi porque precisava de uma metáfora para introduzir minha avacalhação vespertina.

Comecei na tarefa de captar recursos no início dos anos oitenta, meio na marra e escolhido para ser voluntário (sic) por um norte-americano expert no assunto. Naquele tempo, ainda estava como qualquer discípulo de Jesus no monte da multiplicação, mas meu mentor foi muito mais pródigo do que Jesus com os discípulos dele, e tratou de me passar ensinamentos para colher recursos. Obviamente, meu mentor não tinha as capacidades de Jesus, ou melhor, talvez tivesse, mas não sabia. Me ensinar era o melhor a fazer, então.

Naquele tempo, a atividade tinha outro nome e era mais conhecida como “Levantamento de Fundos”. Se fosse hoje, você e eu seriamos levantadores e não captadores. Pegou a diferença? Não né? Pois é, talvez não exista. Uma coisa era certa, meu trabalho era conseguir pessoas.

Voltando à minha metáfora, se não fosse aquele menino atrevido, nós jamais teríamos ouvido falar do tal milagre da multiplicação. Então, se você tiver pessoas, de preferência, “amigos”, diria que está mais perto de conseguir dim dim.

Se quiser chegar mais perto ainda do melhor produto já criado pelo pessoal do inferno, trate de ter uma boa causa. Pessoas são sensíveis a causas relevantes, sobretudo, quando estão envolvidos artigos como: criancinhas, idosos abandonados, miséria, pobreza, saúde precária, ignorância, racismo e vai por aí. Com as pessoas poderemos conseguir dinheiro ou qualquer coisa que possamos transformar no vil metal ou no vil papel, de preferência em verdinhas.

Até meados de 1994, quando uma professora desavisada chamada Maria Célia Cruz voltou do Canada, após duas especializações, convenceu o pessoal da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo a montar um curso para treinar e capacitar executivos para o Terceiro Setor. Quando abri o Estadão, naqueles dias, e bati o olho no press-reliese que a GV havia inserido ali, com a finalidade óbvia de convocar vítimas para o tal curso, fiquei p… da vida, pensando, porque não tive essa ideia antes dela.

O máximo que consegui, depois disso, foi assistir ao curso da GV, em 1997 tendo a própria Célia pilotando a matéria de Captação de Recursos (nessa altura ela já havia mudado o título) e Geração de Renda, dentre outras. Como quase todo mundo por aqui, ela só ensinou estratégias e ferramentas para conseguir dinheiro.

De certo modo, a palavra “recursos” é mais abrangente do que “fundos” e, no decorrer de minhas experiências no setor, acabei entendendo assim, também.

Se você chegou até aqui (nunca ninguém havia dito isso antes) e pegou no ar todas as ironias inclusas, parabéns! To escrevendo isso porque agora é que a coisa vai pegar pra valer.

Pra começar, depois que a Prof. Célia deu o start, com a ajuda da GV, (se não foi isso, foi quase isso) Levantar Funtos e/ou Captar Recursos virou um novo e promissor mercado. Como tudo (alimentação, vestuário, transportes, saúde, educação, religião, etc.) o Terceiro Setor também galgou e status de mercado.

Como você e eu estamos carecas de saber, todo mercado vira zona, isso mesmo, prostituição com todos os requintes diabólicos oferecido pelo decaído anjo Lúcifer, agora Satanás. Adeus a Deus, ética, cavalheirismo, sentimento, honestidade e tudo que era bom.

O Terceiro Setor, como o primeiro e segundo virou samba, Samba do Crioulo Doido (e não sou o dono do samba, muito menos do título, antes que me acusem de racismo). Até os artistas, gente do cinema, música, etc., percebeu a chance de promover-se via Terceiro Setor. A Madona, em uma de suas rápidas passagens por aqui, botou mais de dez milhões no bolso, com a desculpa de ajudar crianças pobres na África.

Pra começar, ninguém (ou quase, tirando o papai aqui) está interessado em doadores pessoas. Os tais “captadores” estão mesmo e se matando uns aos outros para conquistar empresas doadoras. Ah, eles doam muito mais. Bem, isso se você conseguir convencer o responsável em alguma delas a doar para sua ONG.

Nessa altura, grandes investidores já investem em ONGs (via laranjas, claro) para ficar com a maior parte das tais “doações”. Aí também já está em franco andamento todo tipo de propinoduto, só falta do juiz Moro e a Polícia Federal começar a botar milhares de Captadores de Recursos corruptos no Xadrez, todos pegando sua “comissãozinha em qualquer contribuição ou doação efetuada”. As crianças, os velhinhos, hospitais, escolas, etc,. que se lasquem. Bando de otários.

Depois da virada, digo, promoção o Terceiro Setor, Lúcifer, digo, Satanás, não iria parar só nisso. Tratou logo de instigar alguns de seus pupilos a criar sólidos mecanismos atravessadores.

É isso mesmo. Aliás o chifrudo roubou a ideia da Bíblia, ou menos, dos discípulos de Jesus que estrelaram o Milagre da Multipliação, quando disseram a Jesus, sem nenhum pudor, que não havia Supermercados onde comprar comida de bebida por perto. Logo, logo, haverá (se já não há) atravessadores dos atravessadores, como em qualquer mercado. Aliás, dizem por aí que foi Lúcifer, digo, Satanás, quem criou o Mercado, também, antes do dinheiro, é claro.

Negócio agora é o tal cráudiofundimgui (mais conhecido

como crowdfunding).

Há muitos outros atravessadores, geralmente se auto designam como fundos pró crianças, saúde, educação, etc. Minha professora era  diretora executiva da Ashoka, um dos maiores fundos de assistência do mundo.

Por aqui, destaque para Fundação Ayrton Senna, voltada mais para “ajudar” na educação, que eles entendem ser o mesmo que ensino.

Meu, pelo menos, meu mentor ensinou-me a conquistar pessoas e sensibilizá-las com nossa causa, deixando-as à vontade para colaborar doando, entre outras possibilidades.

Jesus, que afinal é filho do Homi, não chegou nem perto desse mercado poluído ou de qualquer outro, muito menos dos atravessadores, e foi logo na raiz e resolveu o problema com um simples milagre.

Pior foi Jesus dizer que nós podemos fazer as mesmas coisas que Ele fez e maiores ainda. Vai ser otimista lá no céu, sô!

OPS: Claro está que tudo isso é minha opinião. Se alguém sentir-se atingido negativamente, pode ficar de mal comigo, mas lembre, sou só um velho e miserável missionário que não tem nem onde cair morto, se é que vou mesmo morrer, algum dia.

Author: Lou H. Mello

Olha só, pessoal assíduo no meu blog profissional já está careca de saber quais são as minhas graduações e tentativas de pós, etc. Pessoalmente, dou pouco valor a tudo isso. É mais um mercado, apenas, onde as universidades acreditam ter o monopólio dos diplomas. Ledo engano. A ajuda é sempre muito relativa. Estudei a Bíblia e ainda o faço, dei aulas em várias escolas teológicas, até o pessoal encerrar minha carreira, nessa área. Acho que não me achavam adequado, sei lá. Legal mesmo, foi viajar por aí a pampa, com destaque à missão para a Albânia, em 1979 e países da África em 1981. Depois disso rodei muito pelos EUA e Europa, mas nada demais nisso. Tenho espírito missionário, acho, mas nos EUA estava mais interessado em fazer um pé de meia. Não deu certo. Mas aprendi muito por lá, onde há muito a aprender.
Atualmente, acalento o Projeto Corações Valentes e tento manter dois ou três clientes, aos quais presto consultoria na área de Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos), algo que aprendi com os norte-americanos, campeões nessa área, , sobretudo, com Dr. Dale W. Kietzman, meu mentor em marketing para organizações não lucrativas. Entretanto, e aos poucos, acho que estou de coisa com a mudança comportamental, de tanto buscá-la para mim mesmo. Culpado disso foi o Dr. Zenon Lotufo Jr, que investiu em minha pessoa, muito além do normal. Talvez 2017 me abra algumas portas nessa área,
Esse blog surgiu como a forma ideal para a prática de algo que sempre gostei muito de fazer, ou seja, escrever e me livrar dessa coisa interior que pressiona meu peito e pode me matar. Tenho alguns projetos de livros em andamento, quem sabe ainda edito um ou alguns deles, antes de fazer a travessia.
Gosto de escrever, de música, literatura em geral, educação, astronomia (minha segunda paixão secreta, Ih falei), educação física e, de vez em quando, dou um ou outro pitaco nessas áreas também. Sou o principal leitor de tudo que escrevo. Ter leitores sempre foi algo inimaginável, enfim.

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