Indivíduos, não empresas ou governo

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João P. Vergueiro

JOÃO PAULO VERGUEIRO

Tenho estudado o tema das doações no Brasil.

Como presidente da ABCR, organização que se dedica a promover a captação de recursos como uma profissão fundamental para a sustentabilidade do terceiro setor, é importante entender também o outro lado, o dos doadores, suas motivações e o perfil que têm no país.

E concluo, com cada vez mais convicção, que a doação no Brasil é majoritariamente ligada a pessoas físicas, a indivíduos. Explico.

Primeiro, olhamos os números disponíveis sobre as doações no mundo. Os dados americanos, recém-divulgados, trazem uma informação reveladora: por lá, 72% de um total de US$ 720 bilhões por ano são doados por indivíduos. Empresas representam apenas 6% deste total, e o governo nem é considerado.

Na Inglaterra, outro exemplo, as doações de indivíduos totalizaram, em 2011, R$ 35 bilhões de reais.

Já as doações corporativas alcançaram R$ 2,2 bilhões, valor que representou apenas 2% do total das receitas das organizações não governamentais (ONGs) britânicas.

Essa realidade das doações de indivíduos representando muito mais no total doado reproduz-se pelo mundo em outros países, como Austrália, Espanha, Canadá, etc.

No Brasil, também já há indícios que mostram o peso das doações realizadas por indivíduos.

A pesquisa da organização ChildFund, publicada em 2011, traz um total de R$ 5,2 bilhões doados anualmente, um valor considerável.

Enquanto isso, o Censo Gife 2012 totaliza R$ 624 milhões de doações feitas por empresas, fundações e institutos, e o Relatório BiscComunitas 2011 identificou R$ 1,6 bilhão de investimentos sociais de 23 grandes corporações empresariais nacionais.

Ou seja, olhando apenas os números frios, lá e aqui, vamos provavelmente chegar à mesma conclusão: tem mais dinheiro de indivíduos sendo doado do que de empresas.

Mas há também uma percepção intuitiva. Os últimos anos de crescimento econômico brasileiro, com o desenvolvimento de uma forte classe média, com recursos disponíveis para gastar e também para doar, têm estimulado a criação de grandes estruturas para captação de doações com indivíduos.

Organizações internacionais como Médicos Sem Fronteiras, WWF, Aldeias Infantis, ActionAid, SavetheChildren, Greenpeace, etc., e nacionais, como o Graacc, Fundação DorinaNowill, Instituto Ayrton Senna, dentre outras, perceberam o potencial que existe por aqui com indivíduos, e têm investido nessa poderosa fonte de recurso.

Doações recorrentes (mensais), microdoações, “crowdfunding”, eventos, campanhas capitais, campanhas anuais, “major donos” (grandes doadores) e até doação de legados são formas de se captar com indivíduos cada vez mais comuns por aqui, reproduzindo modelo já consolidado lá fora e reforçando a relevância dessa estratégia.

Ouvi, recentemente, da fundadora de uma grande organização nacional, que a solução para o financiamento das ONGs está nas empresas. Não concordo. A solução está nas pessoas, e as organizações da sociedade civil cada vez mais percebem isso também.

Empresas e o governo são importantes, sim, como parceiros ou financiando ações específicas, e talvez até para promover o fortalecimento da capacidade institucional das ONGs, mas não para sustentá-las.

É assim que funciona nos países onde a cultura da doação é bem desenvolvida. E é para esse modelo que caminhamos no Brasil.

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João Paulo Vergueiro, administrador, é presidente da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e professor da Fecap.

e-mail: presidente@captacao.org

Fonte: Folha de São Paulo – Empreendedor Social

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Author: Lou H. Mello

Olha só, pessoal assíduo no meu blog profissional já está careca de saber quais são as minhas graduações e tentativas de pós, etc. Pessoalmente, dou pouco valor a tudo isso. É mais um mercado, apenas, onde as universidades acreditam ter o monopólio dos diplomas. Ledo engano. A ajuda é sempre muito relativa. Estudei a Bíblia e ainda o faço, dei aulas em várias escolas teológicas, até o pessoal encerrar minha carreira, nessa área. Acho que não me achavam adequado, sei lá. Legal mesmo, foi viajar por aí a pampa, com destaque à missão para a Albânia, em 1979 e países da África em 1981. Depois disso rodei muito pelos EUA e Europa, mas nada demais nisso. Tenho espírito missionário, acho, mas nos EUA estava mais interessado em fazer um pé de meia. Não deu certo. Mas aprendi muito por lá, onde há muito a aprender.
Atualmente, acalento o Projeto Corações Valentes e tento manter dois ou três clientes, aos quais presto consultoria na área de Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos), algo que aprendi com os norte-americanos, campeões nessa área, , sobretudo, com Dr. Dale W. Kietzman, meu mentor em marketing para organizações não lucrativas. Entretanto, e aos poucos, acho que estou de coisa com a mudança comportamental, de tanto buscá-la para mim mesmo. Culpado disso foi o Dr. Zenon Lotufo Jr, que investiu em minha pessoa, muito além do normal. Talvez 2017 me abra algumas portas nessa área,
Esse blog surgiu como a forma ideal para a prática de algo que sempre gostei muito de fazer, ou seja, escrever e me livrar dessa coisa interior que pressiona meu peito e pode me matar. Tenho alguns projetos de livros em andamento, quem sabe ainda edito um ou alguns deles, antes de fazer a travessia.
Gosto de escrever, de música, literatura em geral, educação, astronomia (minha segunda paixão secreta, Ih falei), educação física e, de vez em quando, dou um ou outro pitaco nessas áreas também. Sou o principal leitor de tudo que escrevo. Ter leitores sempre foi algo inimaginável, enfim.

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