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Curso Grátis aos interessados em trabalhar no Terceiro Setor – marketing e administração

Incrível o tamanho do contingente disponível de “mão de obra” para trabalhar no Terceiro Setor.

Não faz muito tempo que começou o bum de cursos e formações para futuros administradores e marqueteiros desse setor.

Acho que foi na metade da década de noventa (Final do Século XX) com a Profª Célia Cruz. Ela fez uma pós graduação no ramo, lá no Canadá (País onde graça a desgraça, com milhões de indigentes pelas ruas, de fazer-nos ter vergonha de nossa vergonha),  e voltou para o Brasil, onde arrumou uma vaga na FGVSP, para trabalhar com o tema. Depois conseguiu inserir um Press Reliese no Estadão e pimba, estartou a coisa toda, em 1994.

Devo ter esse artigo do estadão em algum lugar lá no porão. Nesse texto, ela chamou a atenção para a migração do pessoal do segundo setor na direção do terceiro, sem o devido treinamento. Claro que estava puxando sardinha para sua própria brasa.

Eu mesmo, tratei de achar um patrocinador (isso é comum para quem trabalha no setor) e fui fazer o curso da Célia Cruz na GV, em 1997. Foi algo surreal para mim, que fui discípulo do Dr. Dale Walter Kietzman, nessa área.

Só de experiência, ele trabalhou dezenove anos na Wicliffe (que depois virou Novas Tribos), aí pelos rincões das tribos indígenas brasileiras, fora doutorado em Antropologia pelo Wheaton College.

Também andei organizando uns cursos, naquela época. Trabalhei na Open Doors Mission onde a missão era, somente, entregar bíblias de graça a quem não tinha como adquirir uma, sobretudo nos países onde não havia liberdade religiosa e muito menos grana para comprar uma.

Naquele tempo, o problema da perseguição aos cristãos era imenso na chamada Cortina de Ferro, China, Laos, Cambodja, Vietnan e Cuba, claro, sem falar nos países onde a religião predominante é o Islã. 

Outra experiência, foi dirigir creches diretas da prefeitura na periferia de São Paulo.

Com o treinamento do Dale W. Kietzman, mais a experiência prática nessas entidades, consegui treinar alguns grupos de futuros captadores de recursos. Nosso método principal, naquele tempo era a Mala Direta. O Dr. Dale não cansava de me dizer que nunca me deixasse convencer que a Mala Direta não é o melhor meio disponível para captar recursos, apesar de todas as invenções que estão sempre aparecendo.

Depois disso, enfrentei várias outra experiências, a maioria em favor de crianças em situação de alto risco, mas também experimentei o trabalho de recuperação adolescentes e adultos usuários de drogas e álcool, durante um ano, dirigindo uma clínica com esse objetivo.

Com exceção da Open Doors e da Prefeitura de SP, era voluntário e, obviamente, sem qualquer registro empregatício e, muito menos, os devidos direitos. Essa é uma dica para quem ainda sonha em trabalhar nessa área, você precisará pensar bem se quer mesmo ser um voluntário.

No curso da Profª Célia e nos meus (quando eu ainda fazia isso) nós nunca ensinamos nossos alunos sobre o que fazer para se defender no caso de trabalho voluntário ( mais de 90% na realidade do Terceiro Setor).

Resultado, agora (em idade de aposentadoria) recebo um salário mínimo de ajuda ao idoso. Os caras poderiam, ao menos, colocar um nome mais digno no trem, tipo, Esmola a um ex-voluntário do Terceiro Setor. Se estiver pensando que virei demanda ao invés de solução, acertou. Vivo esmolando, agora, apesar do charme.

De lá para cá, o que surgiu de cursos para interessados em trabalharem no Terceiro Setor foi de uma grandeza incalculável. Hoje, o contingente de desempregados do Terceiro Setor (e a maioria nunca conseguiu uma única experiência, até hoje, se não me engano) é de uma grandiosidade só perdendo para os desempregados que vivem do Bolsa Família, sendo eles também, sócios do BF., na maioria.

Você deve estar pensando que, apesar dos milhares e milhares de sofredores que vemos pelas ruas, favelas (digo, comunidades), isso sem mencionar a situação nos estados ao norte do sudeste, só comparável à miséria da África inteira, se não for maior, haja espaço para todo esse contingente trabalhar em favor desses desfavorecidos.

Dificilmente, diria. Eles não estão preparados para tanto e muito menos dispostos a ser “voluntários”. Claro que estou mencionando só a fatia social do Terceiro Setor, que também engloba saúde, educação, cultura e esportes, embora a maioria não saiba disso.

Os que conseguiram alguma chance no Terceiro Setor, dentre todos os formados para tanto, mais de 95%, só fizeram cáca. Pudera, aprenderam com quem nunca colocou as mãos na massa, mas ostentam todos os diplomas possíveis e imagináveis.

Pior é a frustração que isso causa nas pessoas, depois que saíram, e agora estão lotando as clínicas públicas psiquiatras para tentar recuperar a sanidade, se tiverem quem lhes pague o tratamento.

Aos responsáveis por captar recursos para organizações cristãs, sem querer desanimá-los, se vocês estão fazendo seu trabalho segundo as concepções adotadas para as organizações do terceiro setor, a notícia não é nada boa, quase nada ou muito pouco do que eles fazem servirá para vocês. Tudo que vocês conseguirão será deixar suas convicções religiosas, afastar-se delas e nunca mais voltar para elas. Arrependam-se e peçam perdão a Deus, por tanto.

 

 

Reitor da UNCW é Fundraiser

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José “Zito” Sartarelli

Ricos deveriam financiar ensino, afirma brasileiro reitor nos EUA (Título Original)

Por João Fellet – @joaofellet Da BBC Brasil em Washington

 

Para José Sartarelli, brasileiro reitor de universidade nos EUA, ricos deveriam doar parte de suas fortunas para a educação.

Brasileiros ricos deveriam seguir o exemplo de norte-americanos e doar parte de suas fortunas para melhorar a educação do país, diz à BBC Brasil José “Zito” Sartarelli, reitor da Universidade da Carolina do Norte Wilmington (UNCW), nos Estados Unidos.

Tido como o primeiro brasileiro a dirigir uma universidade americana, Sartarelli afirma que muitos brasileiros ricos agem como se fossem “levar à tumba todo o dinheiro”.

“Na nossa cultura latina, esperamos que a educação seja provida pelo Estado, grátis. Agora, com o Estado em dificuldades, as pessoas de sucesso se voltam para proteger e investir na própria família”, critica.

Sartarelli foi escolhido reitor da UNCW em abril, em seleção com 95 candidatos. A instituição figura nos rankings das melhores universidades públicas do sul dos Estados Unidos. Nascido há 65 anos em Ribeirão Bonito, cidade com 12 mil habitantes no interior de São Paulo, ele migrou para a educação após uma carreira internacional no setor farmacêutico. Depois de passar pela Eli Lilly e pela Bristol-Myers Squibb, Sartarelli foi presidente da Johnson & Johnson na América Latina, Japão e Ásia-Pacífico entre 2001 e 2010. Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, em 1973, ele fez MBA e doutorado na Universidade de Michigan State, nos Estados Unidos, quando conheceu sua esposa, Katherine.

Sartarelli voltou ao meio universitário em 2010, desta vez como diretor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade de West Virginia, cargo que deixou neste ano. Em entrevista à BBC Brasil, Sartarelli defende que universidades se aproximem de empresas e diz que o Brasil abriu mão de investir em centros de excelência, isso terá um alto custo no futuro.

Ele afirma ainda: para que a universidade dirigida por ele possa competir com as melhores instituições americanas, será essencial atrair bons estudantes. Segundo o reitor, falta ao ensino brasileiro investir em excelência em algumas áreas, única maneira para a promoção de avanços na ciência

Leia os principais trechos da entrevista, concedida por telefone na última semana.

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BBC Brasil – O senhor tinha uma posição de destaque no mundo dos negócios. Por que resolveu se dedicar à educação?

Zito Sartarelli – Eu tinha alguns objetivos claros quando entrei na carreira corporativa: queria ter uma carreira internacional, atuar na área comercial e eventualmente ser o presidente ou gerente-geral de uma empresa. Depois de 30 anos, já tinha feito tudo isso.

Pensei que talvez fosse a época de voltar para área acadêmica e “give back” (devolver). Retornar e compartilhar com estudantes, pessoas jovens, tudo aquilo que aprendi.

BBC Brasil – Como a gestão de uma empresa se diferencia da gestão de uma universidade?

Sartarelli – Embora a liderança moderna nas empresas seja participativa, na área acadêmica é muito mais. Os professores todos têm uma influência muito grande, porque a definição do que nós entregamos para o aluno é feita por eles.

Na área corporativa, você tem bastante poder de fogo para contratar, desenvolver e também demitir pessoas.

BBC Brasil – O fato de ser brasileiro afeta de alguma forma o seu trânsito em universidades americanas?

Sartarelli – Os Estados Unidos são um dos poucos países onde pessoas como eu conseguem chegar aos mais altos níveis através da capacidade, do mérito.

Mas alguns podem ter visto minha contratação como “por que queremos ter um estrangeiro nessa posição?”. Por mais perfeito que meu inglês seja, tem sempre um resquiciozinho (de sotaque) que vão reconhecer.

BBC Brasil – Como compara o ensino superior no Brasil e nos Estados Unidos?

Sartarelli – No Brasil não conseguimos ainda fazer conviverem excelência e acesso.

O sistema de sucesso tem de permitir o acesso a todos os alunos competentes. Por outro lado, o país tem também que focar em algumas áreas específicas de excelência, onde vai ser muito difícil entrar, não vai ter proteção por minorias, onde você tem que ser realmente bom.

A única maneira de avançar a ciência é ter nível de excelência ímpar. Todos os países de desenvolvimento recente, especialmente na Ásia, têm tido uma preocupação muito grande em criar centros de excelência competitivos aos níveis mais altos no mundo. O que nós não temos feito.

Vamos pagar um preço mais alto no futuro, porque vamos continuar sendo copiadores, e não inovadores.

BBC Brasil – O senhor acha que o avanço de políticas afirmativas nas universidades públicas brasileiras afetou a qualidade?

Sartarelli – Não sei. Acho que a não focalização em excelência no Brasil começou há muito tempo, muito antes das políticas afirmativas recentes. Estou falando das décadas de 70, 80, 90.

Já se notava a proliferação de cursos em todo o lado, de baixo nível. Se houvéssemos feito isso e mantido grandes centros de primeira linha, de pesquisa, tudo bem. Mas não fizemos.

BBC Brasil – O senhor dirige uma universidade pública num país onde as universidades mais renomadas são privadas. Como concorrer com instituições que estão entre as melhores do mundo?

Sartarelli – Você tem que ter grandes estudantes. Quando eles chegam aqui, eu digo: “Não estou interessado em coletar sua anuidade. Quero que venham aqui para trabalhar duro”.

Vai ser muito importante minha habilidade em angariar fundos para bolsas de estudos, porque com elas vou conseguir atrair os melhores. Se você é um estudante de primeira linha nos Estados Unidos, vai fazer faculdades privadas sem pagar nada, com bolsas de estudo.

As grandes universidades públicas têm que fazer a mesma coisa. Se você traz grandes alunos, isso atrai grandes professores, porque eles querem ensinar os melhores. É um círculo virtuoso.

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O reitor afirma haver poucos exemplos de ricos no Brasil que sabem que não vão levar suas fortunas “à tumba”

BBC Brasil – O senhor doou US$ 100 mil para um programa de bolsas da Universidade de West Virginia. Acha que as doações, que são uma prática comum entre americanos ricos, deveriam desempenhar um papel maior no financiamento do ensino no Brasil?

Sartarelli – Sem dúvida alguma. O Bill Gates e outros foram recentemente à China falar sobre doações.

O número de doações que têm vindo do Oriente para grandes instituições americanas é muito grande. São ex-alunos asiáticos que fizeram fortunas nas suas terras de origem. Acho uma prática muito boa, que deveria ser incentivada.

Depois de ter criado grandes empresas de aço, o (Andrew) Carnegie (1835-1919) deu toda a fortuna dele para criar grandes bibliotecas em todo o mundo. O Bill Gates, a mesma coisa.

BBC Brasil – Por que isso não ocorre no Brasil?

Sartarelli – Na nossa cultura ibérica, esperamos que a educação seja provida pelo Estado, grátis. Agora, com o Estado em dificuldades, as pessoas de sucesso se voltam para proteger e investir na própria família.

Temos tido algumas exceções, como o Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), pessoas que sabem que não vão levar à tumba todo esse dinheiro. Mas muitos deixam fortunas para a família, que em uma ou duas gerações desperdiça tudo.

Eu doei porque tinha condições e achei que devia fazê-lo. Sou um produto também de bolsas de estudos. Recebi três ou quatro bolsas que me permitiram fazer o que sou hoje.

BBC Brasil – Há quem defenda que as universidades se aproximem das empresas e quem pregue que sejam completamente independentes. Com o senhor acha que deve ser a relação delas com o setor privado?

Sartarelli – Acho que ela deve existir, deve ser cooperativa. A universidade tem muito a ganhar com o mundo corporativo e vice-versa.

Nos Estados Unidos, as universidades que mais auferem dinheiro em termos de licenças comerciais são grandes universidades de pesquisa, como Yale, Stanford, Harvard. Essas universidades descobriram algumas coisas e hoje recebem royalties que são usados para mais pesquisa, bolsas de estudo.

O que não queremos fazer é transformar a universidade num curso profissionalizante. A universidade forma a pessoa como um todo: queremos que nosso aluno aprecie as artes, tenha um profundo conhecimento de ciências e também seja um profissional.

BBC Brasil – O senhor considera um dia trabalhar com educação no Brasil?

Sartarelli – Essas opções são sempre abertas. Adoro o Brasil e gostaria que estivéssemos muito mais avançados do que estamos.


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Esta Ética Neoliberal

Stephen Kanitz

Um dos desastres destes últimos 10 anos, foi o movimento de Responsabilidade Social da Empresa, encabeçado pelo Instituto Ethos, Oded Grajew, Ricardo Young e outros. Obviamente eram pessoas boas, bem intencionadas.

Com juros altos, recessão e corte de custos, as empresas brasileiras socialmente responsáveis reduziram drasticamente as doações ao terceiro setor.

Isto é a maior prova de que as empresas não estão assumindo responsabilidades sociais como gostariam que nós consumidores acreditássemos.

O que as empresas estão fazendo é criar um projeto social com o mínimo de recursos e o máximo de marketing para poder agradar os formadores de opinião, os jornalistas que vivem perguntando o que as empresas fazem para o social.

As empresas não são bobas, pois sabem que aquelas que de fato assumem responsabilidades sociais poderão um dia ser responsabilizadas se os problemas sociais aumentarem, como já estão aumentando.

As empresas não podem assumir responsabilidades sobre o que não entendem direito. Assumir responsabilidade sobre os produtos que produzem já é difícil, imaginem adotar 500 crianças órfãs e cuidá-las por 18 anos. Nenhuma empresa jamais fará isto, orçamentos são feitos por um ano e olhe lá.

A ideia de que as empresas deveriam cuidar do social foi mais um projeto neoliberal que não deu certo.

A última coisa que uma sociedade precisa é de executivos de multinacionais decidindo quais projetos apoiarem e quais não apoiar. A última coisa que o Brasil precisa é que um empresário e seu diretor de vendas decidam qual projeto social eles vão incentivar.

A última coisa que o Brasil precisa é que executivos e empresários elaborem um código de ética para seus funcionários seguirem.

Ética é seara da religião, da filosofia, da família, não de executivos de sociedades anônimas.

Mas esta visão neoliberal ganhou a parada. Hoje quem dita as verbas e os projetos sociais são os executivos de multinacionais e os empresários nacionais, em parceria com dezenas de ONGs que adoram fazer parceria para atender a nova clientela.

A imprensa estimulou este neoliberalismo social criando dezenas de prêmios para as empresas que seguissem este projeto neoliberal.

A visão antiga cristã de que o social deve ser dirigido pela igreja, pela congregação, pelo indivíduo cristão foi abandonada.

A ideia de que a responsabilidade social é da comunidade, que ela é que deve estabelecer a agenda social e não as empresas, foi jogada no ralo.

Em poucos anos esta nova ética neoliberal conseguiu desorganizar o terceiro setor.

As empresas socialmente responsáveis reduziram suas doações para as entidades que já existem há mais de 400 anos, muito antes desta ética neoliberal.

Empresas agora criam seus institutos para fazer o bem, institutos com a marca de seu produto. Como por exemplo, Instituto Pão de Açúcar, Instituto Natura, e o Instituto Abílio Diniz ou Instituto Antônio Luiz da Cunha Seabra.

Isto porque roubaram funcionários das entidades e criaram projetos fáceis sem muito risco social, como criança e educação e ecologia.

A consequência é que as entidades estão morrendo, no fim de suas reservas financeiras.

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A Essência do Terceiro Setor


Qual a essência do Terceiro Setor? O que o caracteriza? Segundo Luiz Carlos Merege da FGV, o TS é formado por organizações privadas com a finalidade da prestar serviço público.

Essas organizações, como prestadoras de serviços públicos gratuitos, não têm fins lucrativos. Sua sustentação origina-se em doações ou na geração de receitas destinadas a projetos específicos e observados os limites concedidos pela lei.

A atuação dessas instituições é muito interessante, por várias razões. Uma delas é o seu caráter privado. Ele permite a um grupo de cidadãos o direito de organizar-se em uma Associação (por exemplo) e através dela enfrentar uma determinada necessidade pública em diversas áreas (social, cultural, educacional, da saúde, do lazer, etc…).

Uma associação dessa natureza é muito mais ágil no cumprimento desses propósitos, na maior parte das vezes, se comparadas aos serviços similares prestados pelo poder público.

Entretanto, é essencial haver a manutenção do caráter privado para garantir independência e essa agilidade.

No Brasil, tem crescido assustadoramente o número de organizações não governamentais ou organizações da sociedade civil, cuja finalidade é filantrópica, que são sustentadas com verbas públicas. Ao fazerem essa opção (ser sustentados pelo estado) elas perdem a independência, pois, essas verbas estão sujeitas a condições pré-estabelecidas, sempre.

Idealmente, essas verbas viriam para complementar as receitas necessárias à implementação de projetos específicos das entidades. Mas, na prática, a maioria das organizações não lucrativas está se especializando em sustentar-se unicamente com as verbas públicas. Ora, qual o nome ou a classificação correta a ser dada a uma organização 100% sustentada com verbas públicas? Passa a ser terceirização, o que as tira a condição filosófica necessária para serem consideradas organizações do terceiro setor autênticas.

Além disso, essa prática é paternalista e todos nós sabemos as consequências disso.

Outra desvantagem desse sistema de sustentação é óbvia, quanto mais dinheiro o poder público comprometer-se a repassar às empresas conveniadas, mais ele precisará arrecadar na forma de impostos. Uma doação enviada diretamente a uma ONG é aproveitada integralmente. Enquanto o poder público precisa arrecadar duas ou três vezes mais para pagar os custos da manutenção do sistema.

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Arrecadação na rua aumenta captação de recursos de ONGs no Brasil

  • Márcio Padrão/BOL


    Kauê Freitas, 28 anos, e Thaina de Morais, 23, trabalham como captadores de doadores da Unicef em SP

Uma cena que vem se tornando comum para quem caminha pelas ruas de São Paulo é se deparar com uma pessoa simpática, que vai ao encontro do pedestre e puxa uma conversa descontraída para então se revelar um captador de doadores para alguma ONG (Organização Não Governamental). Seu objetivo é explicar à pessoa abordada a importância da causa defendida pela ONG em questão e perguntar se ele ou ela gostaria de se tornar doador fixo da entidade, via cartão de crédito.

Com o Natal se aproximando, vale a pena pensar duas vezes antes de dispensar os simpáticos sujeitos de coletes coloridos, pois eles podem ser uma chance para você fazer o bem ou contribuir com projetos humanitários.

Muitos não sabem, mas essa tática tem nome e origem no chamado terceiro setor: é a arrecadação “face-to-face” (cara a cara, traduzido do inglês) e estima-se que tenha surgido na Áustria em 1993 por iniciativa da ONG ambiental Greenpeace. Outros países da Europa e os Estados Unidos não tardaram a praticar o face-to-face devido à grande eficácia e aceitação da abordagem perante o público.

No Brasil, as entidades entrevistadas pela reportagem realizam esse tipo de arrecadação principalmente em São Paulo, mas aos poucos se espalham pelo território nacional. A Unicef também já atuou no Rio de Janeiro, Curitiba e em algumas cidades de Minas Gerais. A Aldeias Infantis SOS abrange 12 Estados e o Distrito Federal.

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Os protestos do Greenpeace200 fotos

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3.dez.2013 – Ativistas do Greenpeace disfarçado de urso polar protesta contra a empresa russa Gazprom, em frente ao hotel Presidente Wilson, onde acontece a conferência Global Energy, em Genebra, Suíça Salvatore Di Nolfi/EFE

Resultados positivos

As organizações são unânimes ao afirmar que o face-to-face elevou significativamente a quantidade de doadores, aumentando assim a verba de suporte aos seus respectivos projetos. “Antes do face-to-face, em 2009, contávamos com 3 mil doadores no Brasil; hoje, são 40 mil”, exemplifica Victor Graça, gerente executivo de desenvolvimento institucional da Fundação Abrinq, que faz parceria com a ONG internacional Save the Children em projetos de incentivo à educação, saúde e proteção às crianças.

“Se comparado aos métodos tradicionais, como a arrecadação pela internet, a mala direta e anúncios publicitários, o face-to-face traz uma taxa mais alta de retenção de doadores, além de ser um método que mostra o trabalho da ONG a muitas pessoas”, analisa Filipe Páscoa, diretor de mobilização de recursos e comunicação da Aldeias Infantis no Brasil.

A entidade, que visa a atender crianças em situação de vulnerabilidade social cuidando delas temporariamente até que a família possa acolhê-las novamente, possui hoje 1.500 doadores no país, mas o objetivo é aumentar esse número para 30 mil até 2015. Entretanto, cerca de 60% dos recursos que chegam à ONG ainda vêm de doadores de outros países. “É curioso: apesar da crise financeira na Europa e o Brasil sendo vendido como um país próspero, os europeus seguem escolhendo o Brasil e outros países mais pobres para focar suas doações”, acrescenta Páscoa.

Os chamados captadores de doadores são profissionais remunerados que podem ser recrutados pela própria ONG – como ocorre com o Greenpeace Brasil – ou por empresas que terceirizam esse serviço, como a Appco e a International Fundraising. “Esses agentes precisam ser muito dinâmicos, proativos, ter muito boa comunicação com as pessoas na rua e ter uma atitude ética, pois o resultado do seu trabalho ajuda as ONGs a colocar em prática os seus projetos”, explica Alberto López Blanco, CEO da International Fundraising, com sede na Espanha.

As organizações garantem transparência no uso do dinheiro coletado, incluindo a arrecadação por doadores pessoas físicas. “Todo recurso arrecadado é usado nos nossos programas no Brasil e no mundo. Nós enviamos boletins trimestrais, recibo e relatório anual”, detalha Regina Gerbi, coordenadora do programa de mobilização de recursos da Unicef no Brasil.

Críticas

Mas nem tudo são flores nesse aspecto. Afinal, há quem ache que a técnica seja incômoda, pois não é raro que as pessoas abordadas pelos captadores demonstrem pressa e impaciência para parar e ouvir o que eles têm a dizer. Além disso, há a desconfiança de dar os dados do cartão de crédito, ou mesmo a impossibilidade financeira de se tornar um doador fixo. Geralmente o captador pede uma contribuição mínima – o valor varia conforme a ONG, mas fica em torno de R$ 25.


  • O captador Kauê Freitas, 28 anos, aborda pedestre para pedir doações para a Unicef

“O captador usa um tablet ali mesmo, para enviar as informações do doador com segurança. A gente explica a importância de se ter doações contínuas para manter a organização, pois o Greenpeace não conta com nenhuma ajuda de empresas, apenas de doadores físicos”, justifica Fabiana Chalhoub, coordenadora de diálogo direto do Greenpeace no país. “Dizemos que, se você não está confortável para doar assim, não doe. Também temos a forma de doação única, por meio do nosso site”, complementa Victor Graça, da Fundação Abrinq.

Já os captadores têm que se virar para chamar a atenção das pessoas nas ruas sem perder o respeito e o bom humor. “No começo a gente ouve uns desaforos, mas precisamos entender que não é assim sempre. E temos que lidar com o fato de que, das 1.000 pessoas que abordamos todo dia, só umas 200 nos ouvem e três a cinco se tornarão doadoras”, diz o captador da Unicef Kauê Freitas, 28 anos.

A reportagem acompanhou Freitas e a colega Thaina de Morais, 23 anos, durante uma hora, no período de almoço, no cruzamento da avenida Angélica com a Higienópolis, em São Paulo. Apesar de poucos de fato pararem, as pessoas que os evitavam sorriam em resposta à tentativa. “A melhor desculpa que ouvi foi de um cara que disse: ‘Não posso parar porque estou todo cagado'”, disse Freitas. “Teve outro que só parou para dizer que não estava prestando atenção no que eu dizia porque me achou muito bonita”, relembra, rindo, a carioca Thaina.

Os que pararam naquele momento elogiaram a atuação da dupla. “Foi bem descontraído. É difícil eu parar por qualquer coisa, mas ele (Kauê) conseguiu”, disse o supervisor de segurança Sérgio Aguiar. “Ele está de parabéns, me cativou bastante”, afirmou a faxineira Neide Carvalho.

BALANÇO DAS ONGs * Quanto arrecada? Por quais meios? Como os recursos são distribuídos?
Aldeias Infantis SOS R$ 30,4 milhões em 2011 R$ 22,4 milhões de doações internacionais; R$ 3,9 milhões de subsídios governamentais; R$ 3,3 milhões de doações nacionais R$ 17,5 milhões em despesas com pessoal; R$ 12,1 milhões com despesas gerais e administrativas; R$ 1,2 milhão com outras despesas. A ONG realiza 20 programas para famílias, comunidades, defesa de direitos e ações voltadas à saúde e nutrição, centros educacionais e promoção de direitos das mulheres, além do auxílio em emergências, em 12 Estados brasileiros e no Distrito Federal
Fundação Abrinq – Save the Children R$ 24,3 milhões em 2012 R$ 8,3 milhões de doações a projetos; R$ 2,4 milhões de contribuições ao Programa Nossas Crianças; R$ 8,7 milhões de contribuições e mensalidades; R$ 1 milhão em receitas financeiras; R$ 3,4 milhões via trabalho voluntário R$ 8,3 milhões em projetos; R$ 2,4 milhões no Programa Nossas Crianças; R$ 9,2 milhões em gastos gerais e administrativos; R$ 3,4 milhões em apropriação do trabalho voluntário
Greenpeace Brasil R$ 21,6 milhões em 2012 R$ 12,6 milhões de contribuições do Greenpeace Internacional e R$ 8,7 milhões de captação nacional R$ 8,7 milhões em campanhas; R$ 2,2 milhões em informação pública e difusão; R$ 5,4 milhões em relacionamento com colaboradores; R$ 3,6 milhões no organizacional da ONG
Unicef R$ 29,3 milhões em 2012 34,1% de doações individuais; 23,7% de alianças corporativas; 23,5% de outras organizações; 18% da sede da Unicef em Nova York e de comitês R$ 13,6 milhões em programas de políticas públicas; R$ 4 milhões em programas para adolescentes; R$ 2,7 milhões no combate à violência; R$ 3,4 milhões contra a mortalidade infantil; R$ 1,4 milhão no combate a HIV/aids; R$ 3,9 milhões em programas educacionais

* Dados de relatórios de prestação de contas disponibilizados pelas entidades em seus respectivos sites oficiais

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Inglês tenta bater 12 recordes em 12 horas para ajudar ONGs11 fotos

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Um ex-jogador da seleção inglesa de críquete tenta bater 12 recordes mundiais em 12 horas. Andrew Flintoff corre contra o relógio para ajudar várias ONGs britânicas, em um projeto chamado Sport Relief. Na foto, ele bate o recorde de menor tempo andando 100 metros em um pedalinho
Justin Tallis/AFP

 

Fonte: UOL Notícias Cotidiano

LHM - Desenvolvimento
LHM – Desenvolvimento

Captadores e Doadores

Captadores de Recursos
Captadores de Recursos

Dentre vários exemplos bíblicos, destacaria a história de Caim e Abel em Gênesis e do casal fulminado em Atos dos Apóstolos como melhores quando o assunto é a contribuição. Neles, fica claro o sentimento de Deus quando o doador encara a tarefa com desdém e menosprezo. Claro que chamar imposto de contribuição é uma baita sacanagem, imposto é obrigatório, compulsório e se não pagar o governo pode até usar as forças armadas para cobrar, caso a policia e a justiça não sejam capazes de fazer o “contribuinte” pagar. Para Deus, o contribuinte pode, inclusive, não contribuir. Só não pode trapacear ou fazer com intenção falsa no coração.

Do outro lado, estão os receptores das contribuições. Fala-se muito em pastores malandrinhos que aparelham as contribuições transformando-as em receita para benefício próprio. Entretanto, eles não são os únicos, a história da igreja católica está completamente manchada por milhares de casos de práticas nada aconselháveis, tanto na angariação, quanto no uso do dinheiro arrecadado por parte dos sacerdotes, bispos, cardeais e papas. Ainda há as organizações sem vínculos religiosos, que muitas vezes servem a seus dirigentes como meros instrumentos de extorsão em benefício próprio. Pessoalmente, creio que Deus abomina todos esses contribuintes e captadores de recursos nada recomendáveis e tem um lugarzinho quentinho reservado para todos eles no porvir e mais algumas espetadas tridênticas já.

Causa-me estranheza que nosso livro sagrado, a Bíblia, não contenha maiores exemplos e sanções para esses picaretas captadores de recursos do mal. Talvez seja por isso que eles o fazem sem temor ou não haja no livro maiores represálias por terem legislado em causa própria, nos concílios da vida.

A partir de amanhã volto à rotina normal de cristão maltrapilho, sem emprego fixo, depois de nove semanas e meia de traição à ética grutense. O Brabo já estava pronto para dizer que me tornara um deles. Mas ainda não foi dessa vez e mesmo tendo me aproximado perigosamente de autores, editores e editoras na última sexta-feira, consegui sair ileso sem apostatar. Acho que o Brabo também escapou, mas tem andado em más companhias.

A grande verdade é: não me ajusto ao trabalho indoor. Meu negócio é trabalhar (o que em última análise é uma forma clara de evidenciar nossa condição de escravos do pecado, qualquer dúvida consulte a bíblia e a condenação do homem após pecar e sem a graça redentora) sem hierarquias, horários e a norma. Tem coisa mais chata do que uma norma ou a lei? A única norma que aprecio é a culta. Ela é um grande barato, sou o maior fã dela. Detesto gente falando errado e a mim mesmo quando o faço. Nem adianta vir com aquela lenga lenga sobre isso ser uma forma de opressão dos pobres pelos ricos. Mais pobre que eu só os habitantes do purgatório. Pior é trabalhar arrecadando para causas inacreditáveis.

Volto ao meu velho e esquecido Projeto Coração Valente em favor dos cardiopatas congênitos. Talvez algum outro mais bíblico e ético. Neles posso ser boi puxando o arado e, claro, no máximo, colher umas espigas caídas ao longo da aragem para levar para casa. Enriquecer às custas de dinheiro doado para outros fins deve ser o tal pecado sem perdão não incluso no cânone sagrado e quem o pratica irá direto para o inferno, sem escalas, segundo minha própria interpretação.

Eu mesmo, tenho entregado gente assim à justiça de Deus, pois a justiça humana seria pouco para os tais.

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LHM

ONGs internacionais ampliam arrecadação no Brasil e miram classe C

Ongs Internacionais captando mais no Brasil
Ongs Internacionais captando mais no Brasil

 Abordagem cara a cara de agentes de ONGs está se tornando mais comum no Brasil

Impulsionadas pelo aumento da renda média da população brasileira e pela crise econômica nos Estados Unidos e na Europa, algumas das ONGs de maior projeção internacional ampliaram significativamente nos últimos cinco anos suas receitas e captações de recursos no Brasil.

Segundo um levantamento feito pela BBC Brasil, seis importantes ONGs internacionais instaladas no país – WWF, ActionAid, Fundação Abrinq – Save the Children, Conservação Internacional, Médicos sem Fronteiras e Greenpeace –, além do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), aumentaram a receita total e a captação de doações em dinheiro de pessoas físicas desde 2008.

O aumento médio real (descontada a inflação) das receitas das sete organizações ficou em 28,8% no período até 2012. Em termos de captação de dinheiro de pessoas físicas, a média de aumento foi de 424,64% entre 2008 e 2012, uma cifra influenciada especialmente por grandes aumentos reais da Conservação Internacional (1.223,69% nos últimos cinco anos) e da ActionAid (1.419,16%).

As duas ONGs decidiram começar os esforços de captação de recursos de pessoas físicas no Brasil apenas em 2007. Também procurada pela BBC Brasil, a Anistia Internacional, que há cerca de dez anos não possuía um escritório no país, voltou a tê-lo no ano passado.

O aumento da atuação das ONGs no Brasil também fica claro devido às campanhas realizadas por elas para arrecadar doações em dinheiro nas grandes cidades brasileiras.

A diversificação das plataformas usadas nessas campanhas – como o uso de agentes pedindo doações nas ruas e a veiculação de propagandas na TV – reflete os esforços cada vez maiores de algumas das ONGs em buscar doações das camadas mais pobres da população, como a Classe C, de olho no aumento de seu poder aquisitivo.

Cenário

 

Só recentemente, especialmente com o aumento da renda, e nas grandes cidades, tem surgido espaço para a canalização de doações mais institucionais. “Neste sentido, grandes ONGs com ‘marcas’ reconhecidas tem larga vantagem, não só por serem reconhecidas, mas por terem estrutura para fazer investimentos iniciais objetivando a criação de um portfólio de captadores.”

Patrícia Mendonça, pesquisadora

Cenário 

Uma pesquisa divulgada em 2011 pela consultoria RGarber revelou que, por ano, o brasileiro doa US$ 5,2 bilhões para organizações da Sociedade Civil. Além disso, 17 milhões de pessoas, ou aproximadamente 9% da população, colaboram com ONGs. Patrícia Mendonça, coordenadora de um estudo da Fundação Getúlio Vargas sobre o assunto, explica que o brasileiro sempre teve a tradição de doar, mas geralmente de forma informal – ajudando pessoas necessitadas na rua, por exemplo – ou colaborando com a igreja. “Só recentemente, especialmente com o aumento da renda, e especialmente nas grandes cidades, tem surgido espaço para a canalização de doações mais institucionais”, destaca. “Neste sentido, grandes ONGs com ‘marcas’ reconhecidas têm larga vantagem, não só por serem reconhecidas, mas por terem estrutura para fazer investimentos iniciais para a criação de um portfólio de captadores”, diz.

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Devido a tal mudança no Brasil e também ao panorama no exterior – a crise econômica nos países desenvolvidos e a priorização de outros países para campanhas das ONGs –, essas organizações estão mudando a forma de atuar no Brasil.

“Historicamente, as ONGs internacionais aplicavam recursos em projetos ou em apoio a projetos locais no Brasil”, continua Patrícia. “Este papel passa a se inverter. Algumas ONGs internacionais deixam de atuar no Brasil, outras continuam atuando, mas com parceiros locais, o que reduz o curso de operação e implica em algum tipo de captação local.”

“Outras ainda priorizam a captação local como forma de sustentação das atividades locais e há ainda casos em que a captação local no Brasil é redirecionada para projetos globais.”

 Autossuficientes

Crescimento de receita de ONGs internacionais no Brasil, 2008-2012*

Conservação Internacional – 17,40%
Greenpeace – 81%
Médicos sem Fronteiras – 213,87%
WWF – 29,87%
ActionAid – 13,74%
Unicef – 41,9%
Fundação Abrinq – Save the Children – 91,18%

*Valores sem descontar a inflação do período. Crédito: dados fornecidos pelas ONGs

As ONGs procuradas pela reportagem da BBC Brasil reconheceram que há um clima favorável para a atuação e captação de recursos dessas organizações no Brasil.

“O Brasil está com uma economia muito mais pujante”, diz André Guimarães, diretor executivo da Conservação Internacional no Brasil. “Além disso, o país passou a ter muito mais capacidade de gerir projetos. Então não estamos precisando importar de outros países tecnologia, conhecimento nem pessoas.”

Nesse contexto, algumas das ONGs expressam abertamente o anseio de deixar de receber por completo apoio financeiro de seus quartéis-generais no exterior, passando a se manter exclusivamente com dinheiro captado no Brasil.

Essa já uma realidade para a Médicos Sem Fronteiras, que desde 2010 não mais recebe aportes de sua sede na Bélgica, e em 2012 teve seu orçamento quase que inteiramente (98%) constituído de doações de pessoas físicas.

No momento, a ONG veicula propagandas na TV com atores da Rede Globo que são eles próprios doadores da Médicos Sem Fronteiras e se dispuseram a abrir mão do cachê. A verba de publicidade em mídias tradicionais da ONG foi, em 2012, de R$ 1,5 milhão.

 

Do Brasil para o mundo

Crescimento de captação de pessoas físicas por ONGs no Brasil, 2008-2012*

Conservação Internacional – 1645,55%
Greenpeace – 73,43%
Médicos Sem Fronteiras – 301,05%
WWF – 79,30%
ActionAid – 1903,32%
Unicef – 30,4%
Fundação Abrinq – Save the Children – 109,83%

*Valores sem descontar a inflação do período. Crédito: valores fornecidos pelas ONGs

Outra estratégia para buscar doadores, comum na Europa, que tem sido cada vez mais usada pelas ONGs internacionais no Brasil é o chamado face-to-face (“cara a cara”, em tradução livre), em que agentes abordam pessoas nas ruas, muitas vezes na saída de estações de metrô ou trem, para divulgar a ONG e pedir doações.

“No campo da captação de recursos, mantemos o foco em nossos canais prioritários: face-to-face, telefone e web”, explica Samantha Federici, coordenadora de captação de recursos do Greenpeace.

Recém-instalada com escritório no Brasil (apesar de atuar há anos no país), a Anistia Internacional ainda avalia possíveis estratégias, mas também pretende usar o corpo a corpo nas ruas e a internet no seu esforço de captação de recursos.

“Esperamos que nos próximos anos sejamos capazes não apenas de sustentar integralmente nosso trabalho no Brasil a partir do apoio obtido no país, mas também contribuir, no futuro, para a sustentação do nosso trabalho em países menos favorecidos economicamente”, diz Átila Roque, diretor da Anistia no Brasil.

ActionAid, Unicef e MSF informaram que já usam o dinheiro doado por brasileiros em iniciativas exterior. A ActionAid, por exemplo, começou em 2011 a direcionar recursos captados no país para projetos no Haiti, na Guatemala e na África.

Classe C na mira

Embora a maior parte das doações em dinheiro a ONGs no Brasil ainda venha das classes A e B, a classe C já é hoje, proporcionalmente à renda, a que mais doa. O estudo da Rgarber revela que, enquanto que a Classe A teve uma variação na doação mensal per capita de -13,5% no período 2003-2010, a classe C teve um crescimento de 10% no mesmo período.

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Parte das ONGs internacionais ouvidas pela BBC reconheceu já estarem tratando essa parcela da população como um alvo importante no Brasil.

“Temos um foco na diversidade, mas acreditamos sim que a classe C pode sim realizar a sua contribuição filantrópica”, diz Nadia Lemos Costa, do departamento de marketing do WWF.

Bruno Benjamin, gestor de captação de recursos da ActionAid Brasil, explica que desde 2011 a ONG tem a campanha Mulheres do Brasil, “que busca exatamente o público classe C, com um valor de doação mínimo de R$ 20”, quase a metade do valor mínimo de doação para apadrinhar uma criança (R$ 45), um dos destaques da ONG.

“Além disso, focamos esta campanha em canais de recrutamento que visam atingir este público-alvo”, completa.

Por outro lado, duas das ONGs consultadas – a Fundação Abrinq – Save the Children e a Conservação Internacional – não trabalham no momento com estratégias para a classe C, enquanto que o Greenpeace diz que o desafio, neste momento, é justamente buscar os mais ricos.

“Ao invés de todo o mercado, que hoje está tentando atingir as classes C e D, historicamente já trabalhamos com elas. Nosso desafio é chegar às classes A e B e dar continuidade ao trabalho com as classes C e D”, afirma Andre Bogsan, diretor de captação do Greenpeace.

Fonte: Rafael Gomez – Da BBC Brasil em São Paulo

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